

DOPO
For the Entrance of the Sun (2007)
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O principal motivo de interesse no estudo das várias vertentes da lógica, não está naquilo que através dela se explica, mas na ironia que ela própria carrega, ao, em certos casos, apresentar contextos que depois não se verificam na prática.
Será que nesses casos a lógica é ela própria ilógica, ou será que os desvios advêm da nossa própria incapacidade de reconhecer certos padrões ou gerar bons argumentos?
Não podemos descurar a possibilidade de estarmos a falar de uma dimensão que transcende o próprio espírito e natureza humana. Mas se assim é, então porque levamos tão a sério a racionalização individual e colectiva?
Essa é, aliás, uma pergunta que se coloca frequentemente no plano das artes: deverá a arte ser um espelho da cultura e do tempo em que é criada, ou apenas um veículo que permita um escape para além da lógica?
A massificação estética e ideológica ambiciona, ou chega mesmo a exigir socialmente, uma certa uniformização dos vários públicos que assim se transformam num só. Existem no entanto cada vez mais casos em que a lógica, neste caso, a lógica de mercado, falha na explicação e antecipação de certos fenómenos sociais e artísticos.
As mudanças processam-se hoje a um ritmo cada vez mais acelerado, mas continuam a ter como denominador comum, as pessoas que, consciente ou inconscientemente, a operam. É esse factor, essa bendita irregularidade humana, que provoca a instabilidade da fronteira existente entre o “logos” e o “anti-logos”.
Não se pense porém, que essa instabilidade prevalece por falta de detractores: a política e a religião aperceberam-se desde há muito, que seria mais fácil controlar pessoas destituídas de identidade própria – a teologia cristã chega mesmo a apresentar o conceito filosófico do “logos”, no Evangelho de S. João.
Existe no entanto um maravilhoso lado primário no espírito humano; um lado que se assume como uma parte e não como um todo. É exactamente por explorar essa desconformidade humana e essa, pelo menos aparente, falta de lógica, que a música dos DOPO se torna interessante.
De repente, a indústria musical fechou-se a si própria num ghetto: uma melhor qualidade de vida implica necessariamente, a possibilidade de cada um fazer as suas próprias escolhas, de pegar em instrumentos musicais e esperar por uma interacção, por uma sucessão de notas que apenas poderiam ser aquelas, mas que acerca disso, nada se sabia apenas há minutos atrás.
Os DOPO conseguem-no de uma forma surpreendente. Os desenhos harmónicos, aqui e ali reminiscentes das ragas indianas, dão ao ouvinte a possibilidade de ele próprio fazer parte do processo criativo. “For the Entrance of the Sun” torna-se agora num estado de espírito, num hino ao reencontro com a falácia, com a incorrecção, e acima de tudo, numa obra que apresenta o todo, sem no entanto o tentar compreender.
© 2007 SP