

Theatro Circo
Braga
Há-de haver um lugar de tristeza enraizado no coração do Texas, que se infiltra nas canções daí oriundas como uma enfermidade. Há-de ser um mal inevitável que circula no ar que se respira, na água que se bebe, na terra em que as pessoas habitam. Ou será talvez do conhecimento do pó, do silêncio, do deserto – essa desolação magnífica que oprime por excesso de liberdade (ou não será a vastidão tão intransponível como paredes?). Mas é certo que há canções que carregam em si a marca indelével dessa tristeza dos lugares perdidos no interior de um país.
E isto ocorre-me ao ouvir Will Johnson, membro dos Centro-Matic e dos seus ‘parentes’ South San Gabriel, que abriu, a solo, o concerto de Micah P. Hinson no Theatro Circo, em Braga. Aparece-nos um rapaz meio tímido, a falar-nos como se fôssemos (des)conhecidos instalados no meio da sua sala. Will tocou durante uma hora temas avulsos de cada uma das bandas de que é membro, e aos primeiros acordes uma associação imediata: faz logo pensar em Jason Molina. Qualquer coisa no timbre, na forma levemente derrotada de arrastar as palavras, no tom solitário das canções. A marca de uma tristeza associada à interioridade e aos lugares desertos tornou-se bem perceptível quando Will anuncia que vai tocar uma ‘canção de festa’… que fala de traição. E de morte. “Mas não se esqueçam, é uma canção de festa, ok?” O silêncio com que foi recebida a canção foi bem reveladora de como o público percebera a mensagem, e que não restava qualquer desejo de festejar.
Quando Micah P. Hinson entrou em palco, o público hesitou na reacção – outro rapaz tímido que surge de forma desajeitada, com total ausência de cerimónias, como se estivesse a tocar no meio da sua sala de estar. E o próprio o confirmava, procurando desculpar-se por ocasionalmente parecer esquecer-se que tinha um público à sua frente e desatar a conversar sobre pormenores técnicos como se estivesse em casa, entre amigos. O que foi de imediato notório é que parecia improvável, se não impossível, que aquele corpo correspondesse àquela voz. Mas à primeira palavra cantada, foi um assombro. Atmosfera intimista criada, o público silenciava-se, comovia-se, angustiava-se. Por mais que uma vez aconteceu no fim de uma canção imperar o silêncio, sem qualquer sombra de dúvida motivado pelo receio generalizado de aplaudir, de fazer barulho, de estragar qualquer coisa de muito bonita que ali tinha acabado de acontecer.
Não foi um concerto genial, mas foi um bom concerto. Sentia-se notoriamente a falta de uma banda – Micah fez-se acompanhar de um só músico faz-tudo – mas ainda assim valeu a pena pelas canções, muito menos “limpas” e contidas do que nos discos. Ao vivo, presenciou-se algo mais bruto, mais genuíno, mais enternecedor. As canções chegaram mais longe, tocaram mais fundo. E se a nível técnico se pode dizer que a coisa corria menos bem – Micah desculpava-se constantemente do equipamento pouco fiável de que dispunham, agradecendo por lhe aturarmos as ‘esquisitices’ – a verdade é que a força das canções era suficiente para construir um bom espectáculo, e o cantautor texano tem na verdade uma presença em palco que não deixa assim tanto a desejar. Presenteou-nos ainda com momentos de fino humor, partilhou apontamentos cómicos, como o facto de ele e o músico que o acompanhava em palco serem apelidados, respectivamente, de 3PO e Chewbacca – ao que um elemento do público respondeu de imediato com uma imitação sonante do grunhido da criatura peluda, que despoletou a gargalhada geral, inclusive entre os músicos.
O concerto consistiu basicamente na apresentação do novo disco, “which is my name and The Opera Circuit”, passando pontualmente por algumas versões – referência a uma das suas influências musicais, o inglês Richard Hawley –, e alguns temas do predecessor “Micah P. Hinson and The Gospel of Progress”. Foi claro que este era o disco mais familiar do público, que reagiu com emoção à apresentação de temas como “Close your eyes” [Close your eyes/and don´t you make a sound./There´s no worries now./There´s no one else arround,/to hear you cry.] ou “Patience” [I’m running out of patience to be fucking with you now/You’d better believe me when I say this now/And I’m packing all my night bags/ And I’ll be on my way/You’d better find me sometime/when you have more to say.]
O fim do concerto foi anunciado com o tema “You’re only lonely”, do novo disco, e de facto culminou num momento que teve qualquer coisa de apoteótico – a canção presta-se à solenidade da despedida. Mas Micah regressaria ainda para um encore, e numa alusão a um passado conturbado que se presume entretanto serenado – fala de si e do seu pai, “He’s an asshole and I’m na asshole, and when you put two assholes together it just doesn’t work”, e de como entretanto aprendeu a dar valor à família – afirma que encerra sempre os espectáculos com a mesma canção: “This Old Guitar”, original de John Denver, que dedica ao pai.
Fez um longo discurso sobre a importância de comprar os discos para apoiar as artes e os artistas, gracejando com o facto de no passado mês de Dezembro ter vendido apenas dois exemplares do seu novo álbum – sendo que um tinha sido comprado pelo músico que o acompanhava em palco. No final, agradeceu, saiu do palco tão sem cerimónias quanto entrou, o público não teve forças para pedir mais. Era compreensível. Esta tristeza vinda dos lugares interiores da terra é coisa que mói e desgasta, para ser consumida em doses calculadas. E precisávamos todos urgentemente de ir lá para fora respirar.
© 2007 RC