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27 de Janeiro de 2007
Fórum Romeu Correia
Almada
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Os Dazkarieh, agrupamento português a querer singrar no mercado expansivo da world music, querem fazer tudo, até têm mãozinhas para parte disso, mas não podem, e no processo não fazem justiça às suas, à primeira impressão, interessantes possibilidades de relativa miscigenação folk (não será inteiramente por acaso que parece haver alguma gente a apreciá-los). Agremiação (muito) jovem, facto curioso para autores já de três registos discográficos, possivelmente lesada pelas mudanças de elenco ao longo da sua carreira, estão a exibir em concerto uma intentona voraz de métodos e registos para galvanizar audiências (aliás, em escusadas performances e estímulos pavlovianos, a fazer do público títeres de palmas e abracinhos, para mais, em prejuízo da estrita audição do que têm a dizer) que ameaça esboroar a valia musical que poderiam mais plenamente representar.
Têm, desde logo, uma débil contenção no gatilho, e a qualquer desculpa acometem-se destravadamente a todos os clichés aprendidos nas “escolas” de músicas celta, a jorrar escalas embaralhadas. Mais que isso (e não é que teoricamente não pudesse ter piada), “acharam” uma maneira mais excêntrica de abanar o capacete das suas mal recalcadas inclinações rockeiras. Infelizmente, não é electrificando os cordofones e remetendo (alerta depauperação musical) um instrumentista a quase (quase) meramente esgravatar acordes num bouzouki boa parte do tempo que se cria uma dinâmica criativa que resgate cabalmente a competência dos seus músicos (quanto mais a pertinência estética do exercício) para lá da indiferençiação. Virtuosismo seco é já há tanto tempo a morte do artista que é triste verificar como continua a assassinar candidatos. Quanto à margem do esgrovianço que os permite deixarem-se planar uns minutos nessa chama tradicional(?) electrificada, no que até poderíamos conceber como uma tentação de space-rock-folk, a categoria seria engraçada, mas quem a prosseguiu com alguma vontade e consequência estética, e não mera provocação ou diletantismo, tinham efectivamente um nome bizarro, mas não era Dazkarieh (apesar da nyckelharpa), era Älgarnas Trädgård.
De facto, numa miscelânea não muito bem gerida, os Dazkarieh querem o estrépito contagiante das cavalgadas celtas (a que nem sempre se dão ao trabalho de acoplar imaginação estrutural e densidade instrumental para além do seu protagonista no acelerador); querem planar liricamente sobre o imaginário tradicional português (com a adesão emocional de quem lê um ditado, com os clichés de empenho teatral na dicção); querem o apelo visceral do rock (mas as suas frenéticas mãos não têm tanta urgência ou crueza emocional, ficando-se por vezes quase pela mímica de guitar-heros). E de tanta ambição, pelo menos ao vivo, acabam por salientar as insuficiências (principalmente num registo lírico, sem conseguir criar sentido de necessidade melódica – ironia que a sua juventude tropece mais notoriamente na imediatez quase pop), ou apenas baixar a bitola. Colocamos esta última hipótese mais redentora, porque eis que a meio da duração do concerto, surgem dois instrumentais em que os donos dos cordofones (bouzoukis e bandolim, para o caso) se investem em cruzar progressivamente serpenteares instrumentais sucedendo em fazer soerguer subtilmente das águas um fluido edifício harmónico, provando que se não têm a emoção à flor da pele enraízada nas profundezas de um encarnado entendimento sensível do mundo, que despropositadamente buscam simular, haveria pelo menos inteligência para urdir uma complexificação frutuosa e dignificante das suas capacidades instrumentais nos terrenos de world music em que se instalam, com ou sem simbolismos candidatos a amostra de heterodoxia.
É quase pena, pelo escoar de talento, verificar que os Dazkarieh poderiam dedicar-se “apenas” a fazer boa música se afinassem as antenas para os domínios de apuro formal que a espaços demonstram ter capacidades de dominar, sem se deixarem cair na tentação da indulgência e dispersão criativa. Se a maturidade e/ou a vontade os impelir a tal depuração de uma identidade criativa (e talvez, na sua carreira, já tenham estado mais próximos de tal), será realmente um prazer ouvi-los.

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