

Coliseu dos Recreios
Lisboa
Assistir a um concerto de Chick Corea (piano) e Gary Burton (vibrafone), trinta e cinco anos depois da estreia da dupla em disco (“Crystal Silence”), continua a ser um acto de uma autêntica e total entrega auditiva perante a genialidade destes dois músicos. O que pode parecer exagero não o é de facto; existe naquela combinação algo de muito especial que extravasa os limites, por vezes frios, da técnica pela técnica. São linguagens próprias e intransmissíveis, facto que não deixa de ser preocupante quando analisados sob a fria luz da continuidade: a criação de uma linguagem torna-se cada vez mais difícil, à medida que o espectro sonoro vai sendo ocupado por todo o tipo de aproximações e a cultura do esforço vai caindo em desuso face à dificuldade, num mundo ready-made, em aliciar alguém a desenvolver um projecto que só irá render frutos daí a dez, quinze ou vinte anos.
À falta de alternativas convincentes, vamos queimando os últimos cartuchos destas quase anãs brancas, para quem parar de tocar é morrer e que por isso mesmo continuam a brindar plateias espalhadas pelo mundo, com aquilo que de melhor sabem fazer.
O concerto de Lisboa foi o pontapé de saída de mais uma tournée, desta feita em jeito de comemoração dos trinta e cinco anos passados sobre o primeiro encontro destes dois músicos. O peso dos anos fazia-se sentir na enorme cumplicidade a que o formato da apresentação também obriga; voavam olhares e sorrisos que pintavam a música com tonalidades fortes. Corea mantinha a estrutura rítmica e harmónica dos temas, deixando o grosso do trabalho solístico para o imparável Burton, cujo entendimento da sua obra (o repertório incluiu maioritariamente composições do pianista) era perfeito, quer na transposição das melodias do piano para o vibrafone, quer no trabalho de arranjos feitos à la minute, que conferiram ao concerto um delicioso grau de risco controlado.
Os processos de execução e audição eram agora muito mais aliciantes para músicos e plateia, chegando mesmo em alguns momentos, a unir irmamente as duas partes em torno da arte que nascia naquele preciso momento, inédito e irrepetível.
Pelo Coliseu passaram temas como “Love Casttles”, “Falling Grace”, “Crystal Silence”, “Tango '92”, “Duende”, “Native Sense”, “Bud Powell”, “No Mistery”, “Alegria”, “Monk’s Blues”, “Señor Mouse” e “Armando's Rhumba”, este último numa inesperada e curiosa versão servida com os sorrisos omnipresentes daqueles dois velhos amigos.
© 2006 SP