

Teatro Académico Gil Vicente
Coimbra
26 de Outubro de 2006. Novembro está demasiado próximo. O centro do país fustigado por temporais de proporções calamitosas. O que faz alguém meter-se à estrada, sob o céu ensombrado de nuvens e promessa de chuva, rumo a Coimbra? Um raio de sol, um resto de Primavera, capaz de lavar com terna alegria todos os desastres do Outono. Camera Obscura – a banda escocesa que faz música que soa a campos verdes a perder de vista, onde o cheiro doce do feno faz cócegas no nariz – no Teatro Académico Gil Vicente (TAGV). É um problema, isto. Sobre Camera Obscura não se consegue escrever sem imediatamente fantasiar e sentir desejo de contar histórias.
Ainda que carreguem o desconfortável estigma de herdeiros de Belle and Sebastian, a verdade é que com “Let’s Get Out of This Country” os Camera Obscura conquistaram terreno por mérito próprio, o que lhes valeu um boom de popularidade de modo algum alcançado com qualquer dos anteriores álbuns. Saíram da sombra e anunciaram: “aí vamos nós e desta vez é para destroçar corações”.
E eu, que odeio listas e balanços de fim de ano, que odeio ainda mais a tirania organizadora do Excel como auxiliar de memória, a pessoa menos provável de quem possa esperar-se uma lista de “melhores de”, dou por mim a antecipar-me aos meses que faltam e a pressentir que de hoje em diante 2006 já não mudará mais: o melhor single do ano foi sem dúvida absolutamente nenhuma "Hey, Lloyd, I'm ready to be heartbroken" do álbum “Let’s Get Out of This Country “. Pelo belíssimo título e letra deliciosamente construída, que é a mais brilhante resposta a uma voz do passado de que tenho ideia, pela alegria que transborda a jorros daquela melodia suave, pela voz de algodão-doce de Tracyanne Campbell, que reconforta como uma chávena de chocolate quente num dia frio, por ser tão tão tão primaveril, autêntica imagem de rebanho de ovelhitas a pastar nos campos com chocalhinhos ao pescoço a tilintar ao sabor da brisa numa tarde ensolarada, e por ter chegado precisamente na Primavera e se ter constituído banda sonora constante dos dias de sol. É o melhor single do ano por motivos pouco elaborados: é o melhor pelo grau de felicidade e divertimento que proporciona.
Esta noite, quando Tracyanne Campbell e Carey Lander entraram no palco do TAGV, com os seus cortes de cabelo seventies-revival, com os seus vestidos coloridos de saia de balão, com meia a condizer e sapatinho camponês, lá veio outra vez a lembrança dos campos verdejantes e da música no meio das flores, e é inevitável o assalto da imagem da família Von Trapp a acordar as montanhas. Abriram o concerto com “Come Back Margaret”, e comprova-se: largam mesmo os instrumentos e batem palminhas ao minuto 1’52. Nós acompanhamos. Comprova-se também que são muito bons em palco, conseguem recriar na perfeição toda a riqueza de sons presentes no disco, e se possível ainda mais vívidos, mais harmoniosos.
Falaram pouco, mas o que falaram foi encantador – quem consegue resistir ao sotaque escocês e o seu bordado de palavras próximo do ininteligível? Muito bonitos, muito doces, muito simpáticos, absolutamente despreparados para as boas vibrações que o público retribuía, saltando das cadeiras para a frente do palco para dançar. “I’m almost sorry to play a slow song now… Should we change it?”, perguntou a Tracyanne. Mas não, não mudaram o alinhamento, e ainda bem, porque de seguida veio “Country Mile”, naquele que foi o mais belo e comovente momento da noite. A Tracyanne diz ”Silver Birch against a Swedish sky / The singer in the band made me want to cry” e não há equívoco: o silêncio cúmplice dos espectadores comprovava que “we’re all inside our own heads now” com toda a emoção à flor da pele. Juro que por momentos abandonei aquela sala, e onde estive não sei – em que lugar da minha cabeça –, mas as vozes de anjos sussurravam por perto.
Quando as primeiras notas de “Hey Lloyd, I’m ready to be heartbroken” soaram do teclado de Carey Lander, foi a loucura total na sala. O público partilhava inquestionavelmente comigo o amor ao tema mais bonito do ano. Vultos, vultos e mais vultos, saltavam, corriam entre as cadeiras, num ápice estava tudo à frente do palco a agitar os braços e a abanar a anca. Aos mais tímidos, que permaneceram sentados, bem se os via a bater o pezito.
O espectáculo consistiu basicamente nas várias canções de “Let’s get out of this country”, com algumas excepções que muito nos agradou recordar, tais como “Keep it clean”, do álbum do álbum “Underachievers please try harder”. Eles pediram desculpa se se atrapalhassem, não tocavam aquilo há muito tempo. Não me lembro se se atrapalharam.
Ainda que assim fosse, nós perdoávamos-lhes tudo. Tudo por aquele início terno com um passeio de bicicleta, para ouvir na voz mais doce do planeta: “Does it make you happy to ignore me on streets? / I guess by now you think I’m weak / I wish you could have said something before now / I wouldn’t share a bag of chips with you / In my opinion you don’t have a clue / I’m being cruel I’m being cruel / I don’t want to be part of your scene /I’ll stick with him and keep my nose clean”.
Foi bom, foi muito bom, e muito bonito, como estar entre amigos. Conseguiram criar um ambiente simpático e acolhedor, ainda que parecesse que o espaço do TAGV era mesmo assim demasiado grande para eles, para a timidez de Tracyanne, para a melancolia intimista das suas canções, que parecem nitidamente feitas para ser segredadas ao ouvido.
Lamentavelmente foi curto, muito curto. Um total de uma hora e cinco minutos de concerto, com um único encore, a encerrar o espectáculo ao som de um tema do álbum “Underachievers please try harder”, escolha do público – “Suspended from class”. Com muita tristeza, assistimos ao encerrar das cortinas e ao acender das luzes, saímos da sala com sabor a pouco. Mas com os corações cheios de alegria: aqui estamos, prontos para ser destroçados.
© 2006 RC