

CURVED AIR
Second Album (1971)
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Desde a sua primeira formação, os Curved Air giraram como peões à volta da sua exuberante vocalista Sonja Kristina, sendo dos poucos grupos de rock progressivo com uma presença feminina na frente da batalha. Depois de um irregular e bombástico álbum de estreia em 1969 (“Air Conditioning”, o primeiro “picture-disc” na história do rock), os Curved Air sofisticaram o som, deixando de lado os pesados solos de guitarra eléctrica e os disparos a Vivaldi. Em “Second Album” predominam os teclados moog e o violino clássico de Darryl Way, todo o álbum é de uma energia entusiástica, o charme de Sonja Kristina é um dos culpados (confirmem no “Live” de 1975 o que era tê-la no palco), inspirando o desempenho dos outros músicos.
“Young Mother” começa de mansinho, arrancando depois com uma estimulante lição de moog, aliás o moog é uma espécie de mestre de cerimónias, levita, toma o lugar da voz (acompanhem o solo aos 3min), cavalga, é um “faz-tudo” com potencialidades nas mãos de Francis Monkman, também guitarrista e explorador do sintetizador VCS3, um dos primeiros do mercado. A voz de Sonja ora é prazer ora é piedade sempre em estimulantes voos, acarinhando o violino num solo mágico ou espicaçando o baixo vigoroso de Ian Eyre, ao que se junta o incansável e criativo baterista Florian Pilkington-Miksa. Alternando frases reflexivas e espasmos de dança estratosférica, “Young Mother” é um momento sublime para uma antologia de rock progressivo.
“Back Street Luv” incendeia ainda mais graças ao som trepidante (o VCS3 ataca!) e à sensualidade felina à flor da pele; o texto de Darryl Way entregue ao ímpeto de Sonja testemunha a candura e os enganos do amor e o falso amor (Luv) com denso grau psicológico. Um multicolor psicadelismo sonoro que daria aos Curved Air inesperado lugar no “top-ten” britânico de singles, mas nunca os converteria ao mercado “mainstream”.
“Jumbo” não destoaria num musical “underground” da Broadway, uma atormentada peça de orquestra escrita no regresso de uma viagem de avião, onde a nostalgia e a incerteza se confirmam em pensamentos suspeitos: “They said I might survive whereas others might died, stay in your room after dark, don’t venture outside”; é a face desassossegada do romantismo que os Renaissance perseguiram no seu academismo e os Curved Air tornaram intenso e invulgar. “You Know” é da mesma categoria acessível de “Back Street Luv”, agora é um “groove” aflito de guitarra que embala a atmosfera viril da composição, chamar a isto rock progressivo é desconhecer as possibilidades que se abriram à canção naquele período fértil da história musical, um cruzamento sem indicações onde jazz, folk, blues, rock e novidade electrónica uniam esforços com despreocupada naturalidade. Ou, por exemplo, em “Puppets” onde um lânguido “mellotron” dialoga com um piano de cabaré, a voz ri e cabriola com os bongós, numa contenção de movimentos que nunca foi apanágio das altas estâncias do rock progressivo. Por outro lado “Everdance” risca fabulosamente o espaço convertendo o violino cigano de Way a máquina voadora, é um “Doutor Fausto” em “folk-dance” irresistível, coisa que uns Fairport Convention não cozinharam com esta especiaria; a extraordinária prestação da bateria, o glissando da guitarra, o violino arrebatado mais o piano eléctrico formam um corpo moldado para a provocante participação de Sonja.
Já “Bright Summer’s Day ‘68” é apenas uma curiosa miniatura, um “psychedelic momentum” leve na intenção mas arisco no modo, a preparação para a intensidade de “Piece Of Mind”, a sequência que completa o álbum. “Bright Summer’s...” é o caçula do disco, Sonia Kristina experimenta as garras de fera assediada pela subversão do texto (“then my Daddy shot Mom, so I’ve written this song”), o cravo é enganadoramente cristalino e a guitarra eléctrica escarnece em riffs desordeiros.
“Piece Of Mind” entra com carga funesta, a percussão sustentando todo o peso do mundo, o piano nas teclas escuras; é um esplêndido poema de T.S. Eliot dividido em épico musical, primeiro a orquestra omnipresente cria uma paleta trágica, o violino de Darryl Way desfaz-se em dor intensa, no texto o poeta atravessa a noite negra da alma; ao rondar os 4 minutos as cordas transcendem a dor com uma passagem majestosa e um cravo sepulcral ergue-se como uma assombração, e o espírito busca a luz com o lirismo do piano. Sonja Kristina consegue dar expressividade ao texto e aventurar-se na grande dimensão sinfónica, com o seu canto de dama pré-rafaelita. Na última parte, há um desenlace de humor, sons grotescos dão corda a uma cadência mecânica, as gaivotas acompanham-nos na voragem do voo, a alma desencarcerada plana nas asas do moog que nos leva para os confins, num belo desfecho para o álbum.
Em 1972, os Curved Air manteriam a excentricidade com “Phantasmagoria” e depois em “Air Cut” já com outro “line-up” e Eddie Jobson (Roxy Music, Jethro Tull) no violino e teclas iniciariam a linha descendente da sua criatividade.
© 2006 AJQ