COS
Viva Boma (1976)
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Segundo álbum e outra obra-prima de encantamento, melodias bruxuleantes que julgávamos carbonizadas na fogueira aqui à mão de semear. Não é necessário falar de rock progressivo ou de vanguarda, uma vez que esta música se defende a si própria pelo esmero com que foi criada. Estes carinhosos artífices de joalharia.
Quando se inaugura um disco com um tema poético-electrónico chamado “Perhaps Next Record” está a fazer-se futurologia, pois iria ser esta a linguagem dos Aksak Maboul na sua estreia “Onze Danses Pour Combattre La Migraine” (1977). Adiante, é só para dizer que Marc Hollander já é elemento dos Cos neste ano de 1976. “Viva Boma”, mais arrumado que o anterior, é um múltiplo menu de paladar exótico para ouvidos menos acostumados. O tema-título é uma curiosa “fake-world-music” a dar razão aos hipopótamos da capa e à luz algo equatorial que os abençoa - o baixo minimal a dar passadeira para o malabarismo étnico de Pascale Son, e um esperto piano dissonante...
“Nog Verder” é lounge-chair sem a apatia, ouvi-lo deve fazer cobiça à legião moderna que idolatra o sample. Quando o tema se levanta é outra loiça: cerâmica rude de guitarra (sempre magnificamente controlada) de Schell e dos aparelhos atulhados de fios de Hollander.
Em “Boehme”, possivelmente uma homenagem ao famoso alquimista, há um forno a crepitar e ocasionalmente notas de teclados soltam-se do lume em dança jocosa de grande complexidade, pequenos espíritos vermelhuscos que nunca mais serão vistos.
“Flamboya” desenvolve-se indolentemente, a voz de Son espicaçando com agudas notas, às quais se junta o piano eléctrico, primeiro imitando depois em suspensão magnética, valente canção atmosférica ou deveríamos dizer “atmosfeérica”? Na finalização, a voz instala-se num território sensual muito próprio, aliciando os músicos nos seus corcéis rítmicos (Marc Moulin participa com o seu mini-moog).
Antecedendo o prodigioso “L’Idiot Léon” (dez minutos de antologia) há “In Lulu”, onde um solo concentrado de guitarra com propósitos cósmicos vai roubar à voz dispersa o protagonismo. Em “L’Idiot Léon” é necessário esperarmos pelos últimos minutos para sentirmos um daqueles estremecimentos de prazer (em vias de extinção) graças à versatilidade da voz de Pascale Son e ao casamento perfeito desta com o acompanhamento da guitarra. É difícil traduzir a um neófito neste tipo de música, tal paixão. Esta caprichosa feira de ritmos e melodias, voz entusiástica a ditar textos terno-dadaístas (é deliciosa a entrada), a espaços um oboé orientalizante, guitarra e órgão roubando toda a electricidade do estúdio, e o fim com um dos instantes mais bonitos de toda a música (im)popular. A genuína beleza do som produzido por palavras sem sentido inflectidas em molde único, a linguagem dos pioneiros do mundo, seguramente! Um órgão-fuzz contorce-se e a voz desencadeia a magia do derradeiro scat (de se ficar obcecado!), a guitarra repete impecavelmente as mesmas notas e quando parecia que o tema ia desembocar na praça com banda de metais e multidão, esfuma-se inexplicavelmente…
“Ixelles” vem com texto a sério (deliciosamente francófono na homenagem à cidade com o mesmo nome), destacando-se o violoncelo meditativo e Marc Moulin a arrancar um grotesco solo de moog (músico belga de renome, cuja obra merece ser descoberta).
A oportuna edição da Musea traz um brinde com três inéditos: “Mon Rebis” tem rara e amena guitarra acústica, desenvolvendo-se progressivamente com um savoir-faire próprio dos inspirados e em “Reine de La Vallée” há um piano eléctrico que é uma estalactite de ouro a reluzir sobre os nossos sentidos. Esta devia ser canção obrigatória em todos os infantários para induzir a magia à criançada.
Para além da versão demo de “Nog Verder” (mais espalhafatosamente genial que o original), resta “Fanfan La Tulipe”, onde toda a gente se divertiu a criar negrume sonoro com as sobras - se tal foi um ensaio, então saíram-se misteriosamente bem.
Deste óptimo grupo vale também a pena investigar “Babel” (1978) e “Pasiones” (1982), este último já sem Pascale Son.

© 2006 AJQ