

COS
Postaeolian Train Robbery (1975)
______________________________________________________________
O grupo Cos pertence à sementeira europeia das músicas não alinhadas, ouçam-no como uma colheita recente e não com aquele espírito retro arrenegado pela “Nova Música MÁ”.
Esta era a casa de músicos engenhosos como Daniel Schell, Charles Loos, Alain Goutier e Pascale Son, a intrépida vocalista a quem nunca foi dado devido estatuto, se considerarmos que neste álbum (e no seguinte “Viva Boma”, de 1976) ela dispôs nos tubos de ensaio pequeninas Björks, uma Elisabeth Fraser em estado embrionário e outras criaturas fusionistas que idolatramos nos dias de hoje.
Oportunamente, Daniel Schell na companhia de Marc Hollander e outros músicos irão fundar os Aksak Maboul (também com curta existência), diversos projectos paralelos, incluindo discos a solo e especialmente uma editora seminal, a Crammed Discs. Portanto, estamos em presença de uma legião bastarda da música comercial.
Abram o disco no tema “Populi” se acharem que os vinte minutos das primeiras três faixas são para analisarem nas horas de lazer e varanda. Tudo o que foi dito no primeiro parágrafo se confirma neste exercício esplêndido de voz e acompanhamento. Lembrem-se da primeira vez que viram “As Férias do Sr.Hulot” de Jacques Tati... Aquele tema lunático de jazz balnear, que não nos saí da memória!
Mas retornemos. O tema-título é sem sombra de dúvida, a inauguração em tom circense do espectáculo que vai estrear, enquanto um piano distraído anda por ali, os músicos são anunciados e quando chega a vez de Pascale Son, há um oboé e detrimento da voz, num genial compasso de espera para que finalmente possam entrar algumas palavras sem nexo - ao que parece é o nome Cos, como se estivessem a arrancar a semente de um forno alquímico.
“Cocalnut” estabelece o scat erótico de Pascale Son, formidável a junção dos músicos em sete minutos de delírio controlado, somos estranhos numa terra estranha. A guitarra de Schell da escola Frippiana, mas com digitalização distinta e o piano, pelo santo, é o malabarista de serviço (já no fim da canção o irmão eléctrico vem dar auxílio) - pensem na fragilidade lírica das esculturas de Calder.
“Amafam” refila com solo de bateria que não é estouvado, na peugada vem o tal piano eléctrico a cantarolar uma melodia obsessiva e Pascale em êxtase onomatopeico lê uma epístola sagrada das cavernas. Nos interlúdios instrumentais há correntes quentes, fontes sulfurosas com tritões brincalhões e depois o tema volta ao preâmbulo, sonata espeleológica.
“Populi” é pop não-massificado, jazz orbital sem nuvens. Tinha tudo para estar no top-ten dos discos mais vendidos, mas esses pertenciam pertanciam na altura quase exclusivamente aos ABBA - Reeditem-no na banda sonora de um filme francês ou vamos pedir ao Nanni Moretti?
Acolham a massagem da próxima flauta e marcarão outras sessões. “Halucal” (outro nome inescrutável) é compêndio jazzístico do mais encantador que se fez na Europa, lembrando a conjunção de culturas que é a metrópole de Bruxelas.
“Coloc” é semelhante na forma-função aos temas precedentes; as inflexões de mademoiselle Son agora em tom de acidez alucinatória a juntar à guitarra caleidoscópio e aos teclados de corte analógico.
Esta música tem escola: os Zao inauguraram um ano antes (1973) esta ideia bizarra de mesclar canção sem palavras com jazz cerebral, no álbum “Z=7L”, onde Mauricia Platon está à altura de Pascale Son. Mas esta edição altruísta da Musea oferece-nos em complemento o projecto Classroom (1972) anterior aos Cos, com apenas Schell e Son do núcleo ulterior. Nesta pré-história, Son deleita-se com textos palavrosos, entre o realismo fantástico e a tradição surrealista, pena é que a qualidade da gravação não seja a melhor, porque isto é música sem rival! Um género que faria escola na referida editora Crammed e na RER de Chris Cutler, a partir da década de oitenta. Dez minutos de “Achille” lavam-nos os orifícios auditivos com bálsamo de flores; a delícia de “L’ Admirable Amas Cellulaire Orangé” pode ser conferida década e meia depois na voz de Elisabeth Fraser (tínhamos dito) e “La Partie d’ Échecs” é Björk-bebé a falar francês (perdoem-nos adeptos da islandesa, mas antes dela há séculos de música).
Esgotem a edição rarefeita deste álbum (provem também “Viva Boma!”) e deleitem-se nestes manás caídos do céu.
Obrigado bom deus da música!
© 2006 AJQ