

COIL
Horse Rotorvator (1987)
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Para além da visão de um psicadelismo solar nos XTC ou lunar em Julian Cope (citando só dois exemplos), os anos 80 levaram à penúria o rock libertário, os The Fall eram teimosos e desajeitados, o “Purple Rain” em “psycho-soul” de Prince vendeu milhões; foi necessário procurar nos não alinhados da música. Desconfiado e de atalaia, o formidável “Horse Rotorvator” dos Coil pertence à década só por obrigação cronológica, se procuram uma genuína obra-prima psicadélica dos anos 80, assustem-se com “Horse Rotorvator”.
Irmãos editoriais dos Current 93 (no princípio era o krautrock ameaçador), “Nurse With Wound” (o krautrock puro e duro está vivo) e Death In June (angustiantemente fascistas, até logo que eu já venho), os Coil certamente não compartilhavam ideologias e estéticas, mas eram felizes dissidentes, a vanguarda da Inglaterra. Peter Christopherson (designer da Hipgnosis nos anos 70) tinha acabado de dizer adeus aos Psychic TV e trazendo John Balance fundou os Coil, que em 1984 editaram o EP “How To Destroy Angels”. No mesmo ano “Scatology” inscrevia-se já na mesma corrente negra de folk-industrial dos Virgin Prunes (Gavin Friday participa num dos temas), mas com “Horse Rotorvator” de 1986, é o golpe de sofisticação, o estúdio como laboratório libertário, a electrónica e a acústica como um Yin e Yang sonoro.
Este álbum promissor desvela alguns dos mais perturbadores minutos da música popular, um hedonismo doloroso combate ao lado de um místico e orgulhoso niilismo; há sintetizadores paisagísticos, trompetes e saxofones cortados às tiras; convocam-se anjos do prazer e da morte (Asrael); os quatro cavaleiros do apocalipse agitam as montadas e as mentes amotinam-se em meditações extremistas sobre a morte e o sexo; há tributos a Pasolini, Clive Barker, Leonard Cohen, William Burroughs e Brion Gysin, Joel Peter Witkin e Bernard Faucon, ao “rent-boy” da esquina, e muitos outros em espírito.
Entra-se furiosamente em “The Anal Staircase” com uma batalha de ritmos, o “sampler” de uma gravação da “Sagração da Primavera” de Strawinsky, distorcido e repetido converte-se em gárgula ameaçadora. Risos inocentes confundem brincadeiras, o que parece pueril torna-se assustador; entre dezenas de teclados laminados e guitarras chicoteadas, John Balance persegue algo que só ele sabe, paranóia ou prazer... A percussão em espiral maníaca sossega com o desafio de um anjo, mas “Slur” continua o nível de adrenalina, tambores digitalizados bombeiam sensualidade, uma sanfona (hurdy-gurdy) cria uma “drone” agreste, enquanto Balance canta sobre os apetites homoeróticos dos Romanos e o convidado Marc Almond responde com ar de “castrati” deitado na liteira.
“Babylero” e “Herald”, as duas miniaturas que enquadram “Ostia (The Death of Pasolini)” são momentos de rua perpetuados num gravador, provavelmente na Festa dos Mortos do México; o menino que enternecidamente canta o “babylero” para a Marisabel, agitando o reco-reco; a fanfarra desafinada, “nonsense” na excentricidade do álbum.
Mas “Ostia (The Death of Pasolini)” é outra loiça, uma tragédia encenada do real; ainda mal as primeiras notas ecoam, já o silvo dos gafanhotos captados no estio e o uivo premonitório de um cão distante nos desconcertam; o tema vive de um sublime arranjo para cordas e um austero teclado pululante como um anátema, descrevendo a morte duvidosa de Pier Paolo Pasolini (“killed to keep the world turning”). John Balance coloca o pathos ideal para a homenagem, suplicando ele próprio a mesma sorte do realizador e escritor italiano, enquanto contempla alguém dormente ao seu lado. Por todo o álbum, a pulsão homoerótica mistura-se com o imaginário místico e os cânones da estatuária clássica grega.
“Penetralia” é um exercício alucinante de rock industrial, riffs à la Young Gods convivem com centenas de caixas de ritmo, golpes secos de trompetes e saxofones descolam do free-jazz, tudo a dar para o torto, emissões de vozes ajustam os alvos e parece a versão apocalíptica de “Astronomy Domine”, em cenário de guerra. Um alívio quando se apaga, não porque seja uma má peça, mas porque nos deixa sufocados e esgotados.
Todavia o álbum não se deita na cama de rede, “Ravenous” é outro bulício, sons de animais distorcidos, esticados e repetidos em eco despertam um clima de dor e terror, o teclado atmosférico faz de senhor cavernoso e um cravo artificial de agulha cirúrgica. Uma crítica à perversão humana, poderia ilustrar um libelo sobre os direitos dos animais. Quanto a “Circles Of Mania” é possivelmente a mais impressionante experiência submetida a um vocalista nos últimos 50 anos; John Balance é atirado para a arena, literalmente, e sofre lancinantemente; ninguém colocou um “parental advisory” na capa. O trompete severo de Jim Thirlwell (Foetus) empurra-nos para uma festa funesta, “this is the sound of the world turning round”, ouvintes sensíveis, abstenham-se. De novo a perversão humana com requintes de sadismo, riffs sujos e “vocoders” depravados, Balance é esquartejado e aberto até à medula num pesadelo “Cronenbergniano”, o pobre ri de tanta dor, gesticula, grunhe, urra em apoplexia, imita a cópula, sorve e lambe, por vezes copiando os sons, enfim, um sonho que é uma experiência limite – não o repitam em casa.
“Blood From The Air”, não é a salvação. São os anti-Kraftwerk, a face terrífica da ciência; seria o apêndice politicamente incorrecto de “Man Machine” se os Coil não tivessem já tido problemas na preterida banda-sonora para “Hellraiser” e na criticada versão de “Tainted Love”, consagrada às primeiras vítimas da SIDA. Guimbardas tratadas digitalmente abrem para uma cadência puramente Kraftwerkiana, mas o que corrói são as decorações que se vão apoderando do tema, enquanto John Balance com espantosa voz sepulcral acerta no niilismo: “the world is in pain and should be put down, and God is a sadist and that he knows it”. A espaços há gotas de ácido luminoso, estrias canoras cortantes, efervescências químicas, bigornas e serras, catadupas de teclados tombando sobre nós e carnificinas com gente a debandar em pânico.
Na preciosa versão de “Who By Fire” de Leonard Cohen, os Coil apoderam-se de um dos mais obscuros poemas do cantor canadiano, agravando o peso dramático das frases como se fosse propriedade sua e adicionando mais um eficaz arranjo de cordas e o coro operático de Marc Almond.
A parte final de “Horse Rotorvator” faz jus ao título: cascos de cavalos põem-nos a olhar para o céu, os Quatro Cavaleiros do Apocalipse trazem Asrael no dorso. Segundo o sonho de John Balance, os Quatro Cavaleiros em vez de descerem e destruírem tudo à sua volta, mataram os cavalos e com as suas mandíbulas construíram uma aterradora máquina com a qual delapidaram a Terra, emanando assim o nome do álbum e o ambiente progressivamente épico da marcha de “The Golden Section” (num estilo que os In The Nursery mais tarde condensariam), segurando Paul Vaughn (famoso narrador da BBC) a narração do excerto de um livro de Peter Wilson, esotérico e heróico repositório de imagens sobre a morte, segundo o poeta persa Rumi. As disposições durante a nossa vida determinarão a forma com que Asrael, o Anjo da Morte, aparecerá nos últimos momentos. “The First Five Minutes After Death” é o desfecho instrumental (e flagrantemente cinematográfico) do álbum, há um uso extático e aterrorizante de teclados atmosféricos e sons naturais deturpados. Uma guitarra ensaia um choro pungente antes da dissolução no desconhecido.
“Todas as faixas de ‘Horse Rotorvator’ são sobre a morte”, dirá John Balance, ele mesmo falecido tragicamente em 2004, após anos de depressão e alcoolismo. Peter Christopherson, o seu companheiro, descrevê-lo-á como um “enorme e negro abismo”.
(As recentes reedições de 2001 sustentam na capa a inscrição “Stevo, pay us what you owe us” referindo-se aos direitos que o dono da Some Bizarre nunca pagou ao grupo pelas diversas reedições dos seus três primeiros álbuns – comprem a edição da Loci, pois tem as faixas na ordem correcta).
© 2006 AJQ