

CID, JOSÉ
10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte (1978)
______________________________________________________________
Sendo talvez a obra máxima em termos de popularidade do rock progressivo português, a única incursão de José Cid pelos terrenos do rock sinfónico (se exceptuarmos o EP “Vida – Sons do Quotidiano”) é, sem dúvida, um trabalho que justifica plenamente os elogios que lhe são dirigidos (e não são poucos: a britânica Q Magazine considerou-o, há uns anos, como um dos 100 melhores álbuns prog de sempre).
Depois das aventuras musicais dos anos 60 com o Quarteto 1111, movendo-se naquilo a que se pode chamar de proto-prog, José Cid lança, em 1978, esta sua obra.
Trata-se de um álbum conceptual que conta a estória de um casal que foge de uma Terra em estado apocalíptico, para navegar no espaço durante 10.000 anos. Passado este período, descobrem uma “nova” Terra, curada dos seus antigos males, e pronta a habitar.
Em termos musicais, o que aqui se pode encontrar é um perfeito exemplo de Progressivo Sinfónico que, contudo, não se cola de forma nítida a nenhuma das grandes bandas do “período de ouro” do progressivo. Mais especificamente, estamos perante um álbum dominado por teclados (entusiastas de Mellotrons e Moogs têm aqui uma verdadeira pérola), mas onde os outros instrumentos também têm espaço para brilhar e, embora não haja por aqui nada de particularmente intrincado ou complexo, somos brindados por uma excelente execução técnica: a secção rítmica é bastante sólida e mesmo algo inventiva de tempos a tempos, e da guitarra ainda ouvimos alguns solos que, não sendo extraordinariamente complicados, têm bastante sentimento, assentando perfeitamente nas canções. De resto, o que aqui se pretende não é tanto a criação de peças musicais complexas (não é RIO), mas a criação de ambientes épicos, adequados ao conceito do disco (space prog?) e, nesta medida, pode-se considerar este álbum como plenamente conseguido. Torna-se, pois, algo difícil seleccionar momentos altos neste trabalho; trata-se de um conjunto bastante equilibrado, onde a qualidade se mantém sem grandes flutuações a um alto nível. Menos positivas serão as vocalizações aqui presentes, mas nem isto chega para beliscar a qualidade do trabalho: as vozes são usadas com moderação ao longo do disco e, mesmo quando aparecem, não tentam ganhar o protagonismo e, por isso, passam relativamente despercebidas.
Veredicto final: um álbum fundamental para qualquer discografia de progressivo português e que dificilmente desiludirá.
© 2005 JTC