CAN
Future Days (1973)
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Erguido como condensação dos anteriores álbuns (“Tago-Mago” e “Ege Bamyasi”), verdadeiras carapaças carnívoras da música popular, “Future Days” herdou um lugar imerecidamente secundário na trilogia que Damo Suzuki (outrora cantor de rua) gravou com os quatro invulgares músicos dos CAN.
Volta-se sempre a este álbum enganadoramente tranquilo para procurar inexplorados e camuflados mistérios no som que se eleva durante quase todo o tempo ligeiramente acima do silêncio. Damo Suzuki é um contemplativo declamador, subjugado pela instrumentação sensual e pelos elementos naturais (água, vento, aves) que encaixam espontaneamente nesta atmosfera encantada.
“Future Days”, o tema-título abre em passo de tartaruga, não sem desconfiança atendendo ao borbulhar da água; descemos vagarosamente (venham teorias dos planetas ocos!) até chegarmos a um suposto universo futuro de genealogia aquática, exótico e equilibrado, longe da corda bamba do efervescente “Tago-Mago”. Enquanto prosseguimos na viagem docemente vertiginosa, a guitarra, levemente distorcida, faz figura de fluído convidativo e os teclados, copiando concertinas esbatidas, atenuam a ansiedade dos nossos sentidos; baixo e bateria combatem para manter estável a cadência do coração. Suzuki vai escrevendo telegramas, tentando resumir tudo aquilo que vê à sua frente: túneis escavados na rocha porosa por homens empreendedores, mil assombros iluminados na água escura, peixes da enciclopédia mais obscura da vida marinha, pássaros em agigantadas redomas de ar e teias de canais interligados onde se vislumbram seres deambulando nos seus afazeres.
Em “Spray” já estamos dentro da cidade aquática – é um tema que abre de forma convicta, a primeira metade instrumental. Ou seja, um turbilhão orgânico e controlado, os CAN unidos a deleitarem-se em gorda sensualidade, apesar de ténue ameaça pairar por ali - há uma paisagem excessivamente extravagante para ser descrita em pormenor ao cidadão moderno, desassossegado com os declives das bolsas e dos mercados. Suzuki chega, na segunda fracção do tema, refeito de uma massagem e estabelece comunicação, mas a sua voz continua tolhida por tanta excelência e mais augura do que alumia. Ou então a incapacidade é do som se propagar convenientemente sob a pressão de mega-toneladas de água.
“Moonshake” é apenas ligeira diversão nocturna, digamos que agradavelmente funky, uma refrescante passagem para a imensidão quente que é “Bel Air”, vinte minutos do melhor rock (“kraut”, “german” ou seja lá o que for) ambiental de que há memória. Os Tangerine Dream e os Neu! possivelmente visionaram tal sofisticação, mas os primeiros compraram uma moldura barroca e os segundos agulhas afiadas.
Damo Susuki, insistindo nos curtos ensaios sussurrantes de “Ege Bamyasi” (“Sing Swan Song” e “One More Night”), os quais davam um carácter acessível ao álbum, e farto de canções desvairadas, seguiu o registo comedido dos camaradas.
“Bel Air” só não foi ainda utilizado em “spots” publicitários e genéricos de programas de rádio, porque os paladinos “mainstream” preferiram o queijinho de Jean-Michel-Jarre, as popices new-wave de má memória adolescente ou até os excelentes atributos comerciais dos Kraftwerk (quem se lembra do saudoso “Ruckzuck” no programa “Novos Horizontes”?).
As qualidades orgânicas e ambientais deste luminoso mosaico futurista são invejadas pela horda inteligente (o que nem sempre é abonatório) da música de cariz electrónico, como se fosse o oásis da criação sonora para o século XXI.
O ponto de perfeição cósmica encontra-se em germinação no solo de “Bel Air”; não são os feijões que crescem para as terras do Joãozinho e do Gigante, mas uma molécula sóbria e necessariamente espiritual, que a turma contemporânea só parcialmente abraçou.

© 2006 AJQ