

BRANCO, JOSÉ MÁRIO
mudam-se os tempos, mudam-se as vontades (1971)
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Portugal está preso ao título, às letras e aos arranjos deste disco, sobretudo por causa deste homem, José Mário Branco, um precioso símbolo da incorruptibilidade, da imaginação, do idealismo. Pequeninos que éramos e sabíamos de cor o ritmo do “Charlatão”, acreditando que era uma canção infantil e então de vez em quando a rádio (telefonia) tocava para nós uma ou outra cantiga e logo se notava a espessura melódica, a letra assertiva que nos tolhia e o arranjo invulgar. Só quem passou por um exílio pode arrebatar uma “Abertura” (como a da Gare d’Austerlitz) e transportar o coração intacto dentro de uma caixa de veludo, marcar um tempo de valsa como se fosse uma herança. Os carris chiam, também a ansiedade e a incerteza é sempre o rosto mais feio. Este acordeão põe a pele como a terra quando chove. Porque está o título do álbum em minúsculas?
E a “Cantiga Para Pedir Dois Tostões” vem vestida ao rigor da moda deste ano? Olarilolela, vem sim e tão aguerrida, com baixo e guitarra improvisando na electricidade alguns pedaços de ira; na cadência sóbria e minimalista não ignorem o texto para lá do yé-yé tão pop e porque não há referências cronológicas a cantiga assenta com vergonhoso chapéu ao Portugal das décadas pós-CEE (agora União Europeia - a União Não Faz a Força). É o “senhore” do portão debruado a ouro, o que se esquece das pontes (Hintze Ribeiro foi chefe de Estado antes de ser ponte) mas não do chafariz com rotunda, é o sentimentalista forrado a político buscando no passado bravos feitos para a miséria que o compõe; é o Portugal decretado ao abandono, após descentralização medíocre, “agradecido” pelo encerramento da escola distante na colina e do centro de saúde para quem trinta minutos já é uma dor calcorreada. E os senhores importantes têm espaçosas e cintilantes viaturas e alcatifam-se de fato preto pois sabem que o país é dessa cor quando passamos para o interior, desculpam-se com a inefável frase “mas agora já temos boas auto-estradas” e assim as crianças nascerão a 120 quilómetros por hora. Diremos, meu caro José, seremos até morrer uma daquelas abelhas com ferrão.
E vinte anos antes dos Madredeus trazerem o desgosto dos Senhores da Guerra, Godinho e Branco compunham com tremenda precisão a “Cantiga do Fogo e da Guerra” e não é preciso ser-se futurista para colhermos de todas as metáforas a lição essencial: a necessidade de travar a injustiça; “o óleo cansado que arde depressa” tem inundado a televisão desde a primeira guerra no Iraque muito mais do que a crise de 70. A este adro chegam arrogantes espécimes de instigadores, os que instigam a dor (hélas) e os tecnocratas, a profissão que tem futuro. Os primeiros brincam e atacam com o fogo, escarnecendo muito feios e os segundos escondendo-se dele, vão tácitos com volumes do “Progresso Unificador” debaixo do braço (ainda não era globalização, ao que esta palavra possa ter de esperançoso, cortem-lhe as vogais por favor!).
E quanto ao “Charlatão”, que dizer de uma canção que está nostalgicamente presa ao riso e mistério da nossa infância, quando ainda havia soalhos de madeira encerada e os quartos da casa se perdiam no labirinto. Para lá do refrão festivo com ratinhos e cabras abracadabras, das palmas e do escárnio sonoro (nunca se percebeu o que estava lá atrás – se rabeca ou kazoo) o texto de Sérgio Godinho aponta a nossa tendência para a aldrabice e para a tirania – não aludiremos ao antigamente já esmiuçado, o “agoramente” é que interessa e “entre a rua e o país vai o passo de um anão”, o problema é que vai o rei que toda a gente quis, o canhão ainda cantamos antes do jogo desportivo, e “é entrar senhorias a ver o que cá se lavra” à revelia de Bruxelas; alguns tecnocratas vestem saias.
De “Queixa Das Almas Jovens Censuradas” custa falar, com este espantoso poema (Natália Correia) que é um choro aflito, J.M.B. agravou ainda mais a dor, custa ouvir, o coração dá um nó de marinheiro, haja quem no Portugal de hoje musique assim um poema, mas ao avesso deste sentimento? Onde está o poema que nos dê dois estalos, que nos afaste do limbo cinzento, da União Interesseira do Chico Espertismo Nacional, para bem de todos nós?
Depois vem um “Nevoeiro” que é a fábula dos cismáticos megalómanos que crêem no herói a trote num cavalo branco, como se eles próprios separassem o sonho da vida, aquela que nos leva todos os dias à rua; um herói, o adolescente empreendedor da guerra que levou à ruína o país? José Mário Branco, sempre o melhor português (é preciso ter estatuto, uma canção de carinha laroca de vez em quando não vale) a construir canções (daquelas que vivem de uma carga expressiva e intrínseca entre texto e arranjo) deu a “Nevoeiro” um órgão de tétrica eucaristia, um ou outro instrumento electrificado em sóbrio padrão, marcou um ritmo que é antepassado dos trovadores provençais na luta contra os inquisidores. E eis um dos fantasmas da Portugalidade (o outro, a saudade) esquadrinhado, “morto e enterrado”, o caminheiro que resignado regressa asseverando a morte real de Sebastião (“o príncipe agoireiro”) parece suavizar momentaneamente o peso dos ombros do pobre país vertical com a face virada a atlântico. O Sebastianismo, puro espectro agarrado às coisas materiais como vulgar assombração.
“Mariazinha” é uma ternurenta balada sobre o desespero dos seres desprezados a quem ninguém concede segundo olhar, o nó de garganta que se anuncia na entrada dorida da guitarra eléctrica enquanto a irmã acústica e o contrabaixo bailam em vestidos de rendas que o suicídio traz à tona da água emaranhados em algas marítimas; a morte como se fosse o único acto poético na sua banal existência. “Casa Comigo Marta” (com letra de Sérgio Godinho), mostra outro quadro de crítica social, desta vez o burguês bem composto julga comprar com dinheiro e bens materiais os favores sexuais de uma rapariga humilde, com quem quer casar. Excelente a voz feminina e o “órgão-farfisa” a imitar um cravo ansioso, em sonata a cem à hora, vinda directamente dos salões bem pensantes onde se apressa a música porque há jantar a fazer.
Mas, e aqui é mesmo um “mas” que tudo faz parar, eis que aparece “Perfilados de Medo”, outro pesadelo que não queremos ser; do texto de Alexandre O’Neil fica um travo ácido, cínico, descrente e frases extraordinárias como “a vida sem viver é mais segura” e “o medo que nos salva da loucura”. J.M.B. pegou neste poema sepultado e trouxe a procissão de “zombies” (são eles, somos nós?) batendo no compasso de tambores. E examinem todo o trabalho da guitarra acústica, a única que dá um cheiro de esperança sob este manto lento, e mesmo antes do órgão-farfisa descoordenado entrar em auto destruição, como um animal contorcendo-se em espasmos às portas da morte. E o órgão que arrogantemente se eleva com uma só nota, calando a voz e o resto, é o “tiraninho”, hoje vertido para a tecnocracia, com assinatura de filósofo grego. Não é canção de baile para dançarmos à roda do sofá da sala, são apenas sete dos mais assustadores minutos da música popular para conscienciosa reflexão, ou já se esqueceram de pensar?
E ainda bem que o título-tema contorce todo o pessimismo com o soneto de Camões sublimemente transportado para um arranjo (ainda) ímpar na canção popular portuguesa, a única em que um par de tímbales tem papel preponderante, tal qual um coração impulsionando a justiça, a bondade, o amor, a esperança (teremos ouvido isto em Pessoa?). E a guitarra agarradinha gentilmente à voz quase copiando as palavras, depois o coro a acrescentar o refrão de José Mário Branco, lutando contra a maré, teremos força suficiente para nos debelarmos contra aquilo que os outros querem (?) para nós? É comovente ouvir a aliança da flauta doce, piano e pratos de bateria no seguimento do refrão, poderemos nós colher exemplos de uma cantiga assim?
© 2006 AJQ