BANDA DO CASACO
Coisas do Arco da Velha (1976)
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Segundo disco da Banda do Casaco, editado em 1976, na consequência da dispersão de metade dos seus elementos após o admirável “Dos Benefícios de Um Vendido no Reino dos Bonifácios”, espécie de “Doutor Fausto” situado no melindroso pós-25 de Abril. Esse álbum mítico de fusão portuguesa (mais folk progressiva) vinha em formato “concept-album”, ou seja, contava uma história (e como contava!) ao passo que em “Coisas do Arco da Velha”, o grupo dividiu toda a genialidade musical em dez narrativas e uma ternura (“Cantiga d’ Embalar Avozinhas”).
Entrando logo a degolar com a “Morgadinha dos Canibais”, agreste e ambiciosa com paus de Miranda, tambores e letra certeira como flecha no alvo. Adaptando (diziam eles, mas nós não acreditamos) um tradicional da Beira Baixa em que não falta a crítica (e os jogos de palavras que eram a marca da Banda) ao Portugal secular: “Morgadinha, quem te disse a ti que a tua terra era um jardim, cheirando a erva e alecrim, enganou-te, trocou-te a gramática, virou-te a fonética – que a tua terra não cheira assim (...)”; e adiante o coro radiante de vozes em contraponto, ou apenas uma delas em multi-tracking embalada em adufes. Pelo arranjo e pela letra tão proverbialmente surrealista e superiormente cantada, é um must.
“Ai Mê André”, idêntico tradicional arrevesado, junta o lirismo pastoral das cordas com um piano exultante e decidido, e acima de tudo o momento do disco: o riso contundente e contagiante da voz feminina ao enganar-se na primeira estrofe – era assim a Banda do Casaco, imprevisível – e sem perda de pitada de poesia; o apuro vocal é imaculado e o texto enigmático faz lembrar os Malicorne no seu período impecável de criatividade (1974 – 1979). Também de um tradicional algarvio, a Banda do Casaco adaptou “Romance de Branca Flor” que abre com vozes ansiosas em chamamento, diáfanos “uh-uh’s” de fada e um oboé mirabolante; cheirando a léguas à folk britânica de 70 e apesar de nem sempre as vozes terem o seu mérito (indiscutivelmente as de Pinho e Rodrigues são as mais versáteis), as cordas e os teclados acentuam o carácter dramático e dão sofisticação a esta atmosférica peça.
“Rigolindo” é uma pequena e fresca intromissão de minuto e meio assaltada (e muito bem) por pífaros e adufes (sempre viris e entusiasmantes estes tambores), em que humor e verdade vão lado-a-lado: “Ao menos uma vez em cada ano, sabe bem partir o mealheiro”; infelizmente, hoje em dia os bancos substituíram os mealheiros e já não há quem trabalhe com tal canseira, para bem de alguma coisa.
“Olá Margarida” tem o alento de uma noite de Inverno com lareira e casa de madeira, um ténue e ensimesmado erotismo faz arder o desiludido quarteto de cordas e a guitarra tem uma participação magistral (Arlindo Neves), elevando-se com mil cordas de esperança; se Portugal está aqui não pode envergonhar-se com esta lição irrepreensível de trovador apaixonado. Mas calma, que a seguir temos Portugal no seu melhor, assim como a Banda.
Raramente um par de canções foi tão comovente num disco de M.P.P. como “Canto de Amor e Trabalho” e “É triste Não Saber Ler”, e apesar do horizonte melancólico, é Portugal no seu modesto encanto, o dos seres esquecidos que ainda têm um daqueles sorrisos de encher o peito, o país onde poderemos esperar por algo humano. Em “Canto de Amor e Trabalho” é o chefe de família que nas cálidas estradas do Alentejo, a trote no dorso da sua burra (em risco de ser atropelado), anseia pelo regresso a casa após a estafa do trabalho e ter tempo para dar um beijinho à pequenita. “É Triste Não Saber Ler” reflecte a nossa telúrica melancolia devolvida pelos céus e é difícil não sentir uma certa emoção, e sobretudo por causa de um arranjo fora de série.
Mas em “Canto de Amor e Trabalho” não há nenhum instrumento que não participe do cheiro entranhado dos nossos campos, a guitarra caminhante com magia dedilhada, o afinado violino e acima de tudo a altivez do coro feminino no despique com a extraordinária e expressiva voz masculina, uma prova de como se pode aventurar em português sem que se torça o nariz (o Quinteto Tati é um exemplo hoje em dia).
Ecoando com o tinir dos “espanta-espíritos”, a voz categórica de “É triste Não Saber Ler” alterna com o violoncelo mais profundo da música portuguesa. Bastaria este cântico resignado de simplicidade filosófica (rival do absurdamente belo “A Morte Nunca Existiu” de José Mário Branco) para por si só valer o álbum inteiro, pois que a seguir o grupo estatela-se amiúde em “Virgolino Faz o Pino”, não conseguindo equilibrar um texto tão nonsense e cheio de capacidades com o arranjo onde, a seguir a um vulgar intróito uma gorda orquestra nada expressa, e atendendo que as vozes se tornam adiante mais aprimoradas, é pena os efeitos considerados subversivos contribuírem para alongar o que poderia ter sido feito em minuto e meio.
Contudo “A Mulher do Regedor” vem manhosa, é uma fantástica cornucópia de melodias emoldurada num quadro social, ao nível do que há de mais ousado na MPP. O violino de “Paganini diabólico” arrancado aos socalcos celtas do Douro (“ganda” Mena!) mais o violoncelo de serão vespertino e um método vocal que fez escola nos Gaiteiros de Lisboa e Vai de Roda (a propósito a sua obra-prima, “Terreiro das Bruxas” foi reeditada), vão arrancar-nos do sofá em tom ébrio para um pezinho de dança. Atenção, deputados da Assembleia, o demo ataca na província.
Antes da canção de ninar avozinhas, deleitemo-nos com os propósitos humorísticos e (desta vez) bem calibrados de “Era Uma Vez Uma Velha”. Orquestra, pianinho e violino, passarinhos e pouco a pouco já se troca “velha” por “ovelha”, xilofones e assobios cheios de garra agitando o romantismo de salão que teimosamente ricocheteia e é ver o final onde uma anarquia de velhas, mé-é’s, heras e ó-ó’s deixa tudo a dormir no chão encerado. Aconcheguem os meninos ao som da “Cantiga D’ Embalar Avozinhas”.

© 2006 AJQ