BANDA DO CASACO
Dos Benefícios de um Vendido no Reino dos Bonifácios (1974)
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Outubro de 1974. Portugal em estado de grande convulsão política, com a revolução de Abril ainda bem presente e com uma ordem social ainda não perfeitamente instituída. Neste mês, e neste contexto sócio-político, a Banda do Casaco entra em estúdio para gravar o seu primeiro álbum (embora, muito provavelmente, tenha começado a ser composto ainda antes da revolução de Abril).
O resultado recebeu o nome “Dos Benefícios de um Vendido no Reino dos Bonifácios”, uma obra conceptual de folk-prog português absolutamente ímpar que ninguém (nem mesmo a própria Banda) conseguiu superar em esforços subsequentes ensaiados neste estilo musical. Trata-se, pois, de um trabalho de altíssima qualidade, tanto a nível instrumental e de composição, como a nível de conceito e letras.
Sob o ponto de vista lírico, estamos perante uma adaptação do conto germânico de Fausto (o mesmo eloquentemente tratado por Goethe) à realidade portuguesa, configurando-o numa inteligentíssima e implacável sátira política. Concretizando: “Dos Benefícios”… desenvolve-se em torno da estória de um indivíduo que vende a alma ao Diabo a troco, não tanto de conhecimento ou sabedoria, mas de dinheiro e prestígio social. Toda esta narrativa é servida ao ouvinte através de excelentes letras, sempre cuidadas, poéticas, corrosivas, alegóricas e metafóricas, ocasionalmente adornadas com inspirados trocadilhos que, de resto, são patentes até nos títulos de algumas das faixas (“Henrique Ser ou não Henriquecer”, “Horas de Ponta e Mola”). De resto, uma audição desatenta a este álbum é suficiente para nos apercebermos da enorme importância das palavras têm (são, pelo menos, tão importantes como a vertente instrumental) e, de facto, poucos são os momentos não cantados ao longo destes quase 40 minutos, sem que, contudo, esta abundância de vocalizações se torne alguma vez cansativa. Para tal, contribuirá o facto das partes cantadas serem divididas por muitos intérpretes (consultando a ficha técnica confirmamos que sete dos nove elementos dos grupo cantam no disco).
Em termos instrumentais, o folk-prog da Banda do Casaco vai beber as suas influências a várias fontes, mas podemos reduzir a duas as mais importantes: por um lado o cantar de intervenção de Zeca Afonso, Fausto ou José Mário Branco (que, claro, já era uma influência a nível lírico) e, por outro, a música tradicional portuguesa. Mas neste cruzamento há ainda espaço para o jazz, algum prog, experimentalismo e arrojo, tudo servido por uma execução exemplar. De facto, podemos encontrar neste disco, lado a lado, a reverência à tradição da música de tempos idos, e aspectos absolutamente revolucionários, como a utilização de dissonâncias, a composição intrincada ou mesmo o recurso a instrumentos pouco convencionais (dos quais os exemplos máximos serão os desodorizantes em stick e em spray). A nível de composição, é notória a riqueza de ideias que foram postas neste disco, inviabilizando qualquer possibilidade de o mesmo se tornar desinteressante ou repetitivo (mesmo após várias audições). Esta riqueza de ideias é evidente, por exemplo, numa música como “A Cavalo Dado” onde, graças às constantes trocas de melodia, a Banda consegue construir um autêntico épico que, contudo, não atinge a marca dos três minutos (e mais, todas estas mudanças em tão curto tempo não soam nunca forçadas ou fora do sítio).
Destaque também para o belíssimo trabalho gráfico, cortesia de Carlos Zíngaro, que envolve o disco (numa espécie de banda desenhada que reproduz alguns momentos da narrativa apresentada musicalmente).
Para finalizar, uma curiosidade: cabe à Banda do Casaco a honra de terem sido os primeiros portugueses a utilizar vocalizações evil em disco (antes de qualquer banda de metal ensaiar semelhante manobra), basta conferir em “Na Boca do Inferno”.

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