Rock Metamorfoses: Da quase indescritível sensação visual e auditiva de caminhar dentro da “Snake Bilbaína” de Richard Serra à sublime sensação de experimentar Channel number five e sonhar em fazer malandrices com a Marilyn Monroe, num texto que, apesar de tudo, tem como leitmotiv um tão notável quanto irresistível concerto de percussão!

1. Uma notícia da recente reapresentação do concerto Rock Metamorfoses no Centro Cultural de Belém reavivou-me a memória da notável estreia desse mesmo espectáculo, à qual assisti, no Teatro José Lúcio da Silva, em Leiria, na noite de 18 de Maio de 2004, no concerto de abertura do XXII Festival Música em Leiria. Todavia, estive desta vez física e espiritualmente bem distante daquele concerto, dado encontrar-me nessa mesma altura em pleno gozo de férias, viajando por terras dos países vascos, espanhol e francês. Sensivelmente à mesma hora em que muitos preparavam ou iniciavam a sua deslocação ao Centro Cultural de Belém, para presenciar aquele espectáculo, circulava eu pelo piso inferior do Museo Guggenheim Bilbao, fruindo diferenciados mas não menos edificantes estímulos visuais e auditivos. Escrevo declaradamente sobre a minha sugestiva e sensível passagem pelo espaço interior da monumental e estilizada serpente metálica especialmente concebida pelo artista de representação visual californiano Richard Serra para aquele espaço daquele museu. Muito mais que a confirmação de uma simples necessidade vivencial, essa minha visita à escultura Snake parecia-me, durante aqueles dificilmente repetíveis instantes de puro prazer sensitivo, a feliz concretização de um sonho. Foi mesmo essa a minha sensação inicial quando quase literalmente mergulhei e iniciei o meu duplicado percurso pedestre de quase trinta e dois metros pelo ondulante espaço físico pós-minimalista da tão imponente como metafísica Snake artisticamente gerada pelo mestre Richard Serra para integrar o não menos imponente e não menos metafísico edifício gerado pelo imaginativo arquitecto Frank O. Gehry para a movimentada e industrializada Bilbao. A minha não muito longa viagem pela serpente de aço de Serra transformou-me em poucos segundos de simples espectador em puro actor daquela escultura, dado que tanto os meus passos como a minha voz me foram transformando também em momentâneo actor daquela espaço, através da sua estudada e muitíssimo bem conseguida repercussão de efeitos sonoros através dos efeitos de reverberação nela idealizados e conseguidos. E como a esta sensação sonora aquele ondeante espaço escultural alia uma quase indescritível sensação visual de alteração do próprio espaço físico, a verdade é que a apreensão simultânea daqueles efeitos visuais e acústicos confere àquela Snake de Richard Serra a quase delirante ambiência de um autêntico Outro Lado do Espelho, metamorfoseando os seus visitantes mais empenhados em autênticas Alice No Pais das Maravilhas que Frank O. Gehry notavelmente criou para a cidade de Bilbao...

2. Sendo assim, torna- se evidente que não presenciei a reapresentação daquelas Rock Metamorfoses em Lisboa, tendo todavia a clara noção de que o capacíssimo agrupamento de percussão Drumming, dirigido pelo arguto e exponencial percussionista valenciano Miquel Bernat, voltou desta vez a fazer jus à sua excelente e merecida reputação naquele concerto, proporcionando uma noite absolutamente memorável ao público que a ele assistiu. Relembro que assisti à estreia daquele inolvidável espectáculo no concerto de abertura da vigésima segunda edição do qualificado Festival Música em Leiria, na noite de 18 de Maio de 2004, no belíssimo auditório do Teatro José Lúcio da Silva, que tecnicamente pouco ou nada fica a dever a qualquer auditório do Centro Cultural de Belém. A ideia de conceber um concerto de percussão (in)subordinado ao tema Rock Metamorfoses revelou-se-me como uma subtil e arrojada concepção criativa e interpretativa. A perspicaz ideia que presidiu à concepção daquele inusual concerto foi a de convidar alguns dos mais qualificados compositores contemporâneos portugueses a delinear a sua criatividade escrevendo composições de música culta contemporânea cujo ponto de partida seria a manipulação e transformação de material musical oriundo da área pop/rock (e do jazz), para esse efeito seleccionado pelos próprios compositores convidados. Será contudo necessário aqui evidenciar que aqueles não (cor)responderam com simples (novos) arranjos mas sim com autênticas obras novas, tipológica e estruturalmente diferenciadas das composições em que se inspiraram. Logo de entrada o público era cenicamente surpreendido pela vasta parafernália percutível disseminada pelo palco, destinada à interpretação daquelas obras, na qual o convincente Miquel Bernat seria acompanhado por alguns dos seus aprumados condiscípulos e companheiros.
O primeiro tema da noite foi o surpreendente “Swing, Sing, Sing” de um intelectivo João Pedro Oliveira que aproveitou esta ocasião para se espraiar divertida e criativamente a partir do clássico jazzístico “Sing, Sing, Sing” de Benny Goodman, jogando os seus dados a partir de uma transformação dos solos originais e do seu enquadramento com o refrão goodmaniano, alardeando uma espontaneidade que não lhe conhecíamos- o Drumming foi neste caso tão ou (muito mais) swingativo quanto o necessário, brilhando a bom brilhar pela sua habitual e indiscutível competência interpretativa. A esta entrada de leão seguiu-se o não menos surpreendente “Say Beautiful” de Fernando Lapa, que optou por trabalhar a partir da estrutura rítmico-harmónica de “Beautiful Day” dos U2, proporcionando nova manifestação da excelência interpretativa de Miquel Bernat e dos seus companheiros. A primeira parte terminaria com a envolvente “Drumming The Hard Way” de Carlos Azevedo, cujo leimotiv foi o multidisciplinar universo criativo de Frank Zappa, concebendo uma fulgurante composição em que o Drumming voltou a dar muito boa conta de todo o recado. No início da segunda parte viria a mais arrebatadora e persuasiva composição da noite, “Step By Step: Wolfs”, na qual um surpreendente António Pinho Vargas deu uma volta completa e quase surreal ao mítico “Born To Be Wild” dos Steppenwolf, transformando-o em música electro-acústica, jogando prazenteiramente com a própria composição original e alguns concretismos live, gerando puros momentos de prazer aos músicos e ao público: foi mesmo de cair para o lado! Ganha que estava a noite, seguir-se-iam temas compostos a partir de ideias originais dos eternos Beatles, o primeiro dos quais, “Deep Water Music” de António Chagas Rosa, se mostrou como uma autêntica e demolidora revolução permanente concebida a partir do irónico “The Yellow Submarine”, cujos acordes originais apenas ali surgem muito remotamente, delineados por um simpático piano de brinquedo, numa composição que terá sido a criativamente mais radical daquele espectáculo, mesmo no que respeita ao seu enquadramento cénico. A terminar foi apresentada uma maravilhosa e também complexa obra de Mário Laginha, que a partir do melancólico “Blackbird” do mítico duplo álbum branco daqueles heróis de Liverpool construiu um inteligente tema no qual se digladiam, revolvem e envolvem estéticas aparentemente tão contrastantes como o rock, o jazz e a música culta contemporânea, fascinante estruturação criativa (dificilmente catalogável) a que o Drumming correspondeu com uma daquelas interpretações tão convincentes que fazem o público mexer por dentro.

3. Contudo, não pretendo terminar este texto sem regressar literariamente às minhas felizes férias deste ano e a outras novas sensações nelas por mim recebidas e apreendidas sob aquele efeito tão tranquilizante como diletante de que todos beneficiamos quando fruímos um período tão refrescante e prazenteiro como aquele em viajamos por esse mundo fora... Uma das novas sensações por mim apreendidas durante o gozo da minha recente viagem de férias foi a de pela primeira vez ter tido a oportunidade de experimentar o mítico perfume Channel Number Five. Reza a história que a endeusada Marilyn Monroe quase se banhava com o aromático conteúdo de frasquinhos daquele perfume tão francês como a Tour Eiffel, o bairro de Montparnasse ou os não menos míticos croissants servidos ao pequeno-almoço nos hóteis de Paris... Reza a mesmíssima história que a própria Marilyn era uma mulher pura e simplesmente irresistível para qualquer homem que se prezasse da sua masculinidade e que foram mesmo muito poucos os que conseguiram resistir aos seus encantos... A curiosidade e a oportunidade de experimentar a fragrância daquele perfume disponibilizaram-se-me numa recheada e luxuosa perfumaria de Biarritz e a verdade é que enfrentei essa nova aventura sem quaisquer hesitações e que os seus resultados foram quase tão instantâneos como a magnética atracção por ela evidenciada não só na vida real como pelos intérpretes masculinos de seus filmes como “Gentlemen Prefer Blondes”, 2The French Doll”, “There’s No Business Like Show Business”, “River Of No Return”, “Bus Stop” ou “Some Like It Hot”, muitas vezes dirigidos por realizadores tão credenciados como Billy Wilder, Howard Hawks, John Huston ou Otto Preminger, entre tantos outros... E deste último filme recordo sempre a mais bela imagem feminina que alguma vez vi em cinema: a do seu ondeante, enleante e puramente irresistível aparecimento em cena, a preto e branco, numa gare de autocarros, perante uns tão extasiados como eu Jack Lemon e Tony Curtis (e aqui teço honras ao nosso Manoel de Oliveira, autor da outra mais bela imagem de mulher que já vi em cinema: a da cena final de Party, quando a não menos sensual Leonor Silveira se volta para nós, no escuro, após expressivo diálogo com Rogério Samora...). E foi assim que apesar de ter passado quase uma manhã de férias com os meus dedos da mão esquerda a cheirar subtilmente a Channel Number Five e a sonhar acordado com a cama da Marilyn Monroe verifiquei que fruir a fragrância daquele perfume é um instante tão mágico que imediatamente nos dá a entender a dificuldade que qualquer um teria em resistir ao encanto visual e aromático de uma mulher como a Marilyn Monroe e à sublime oportunidade de fazer umas malandrices com a belíssima menina...

4. Não tenho conhecimento de que esteja em preparação qualquer espectáculo com as canções que Marilyn Monroe cantava. Mas a verdade é que elas foram mesmo muitas e que ela cantava mesmo... Foram mesmo muitos os grandes compositores norte-americanos que compuseram para a sua voz e para o seu canto, estando mesmo entre eles vultos como George Gershwin, Hoagy Carmichael, Jerome Kern ou Irving Berlin... De entre todas essas composições muitos ainda recordamos enlevadamente cancões como “Diamonds Are Girl’s Best Friends”, “Lazy”, “You’d Be Surprised” ou “When Love Goes Wrong Nothing Goes Right”... Chegou então a minha oportunidade de fazer uma pequena malandrice com a menina Marilyn e a verdade é que não a vou mesmo desperdiçar, relembrando agora o seu filme “River Of No Return”, uma interessante cowboyada em que canta (I’m Gonna File My Claim e Down In The Meadow) e representa e, entre outros, contracena com o canastrão Robert Mitchum, que não perde a oportunidade, ele mesmo, de nesse filme ser ele a cantar a (sua) emblemática canção que ficou para a história: “Roving Gambler”!...

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