

De Freud a Marilyn Manson, passando por Wagner, pela Judy Garland e pela Disneyland, e não chegando a lado nenhum
1. Este ensaio pretende relacionar a arte musical com o mundo do subconsciente, cerca de um século após a publicação do livro “A Interpretação dos Sonhos”, em 1900, no qual o neurologista austríaco Sigmund Freud (1856-1939) dava a conhecer os resultados dos trabalhos de investigação que vinha desenvolvendo desde 1897. As fundamentações teóricas de Freud sobre os recônditos e até então inexplorados domínios da mente humana, resultariam no surgimento da Psicanálise, da qual foi criador, alterando para sempre o conhecimento científico do mundo ocidental. Além da Psicoterapia, os estudos de Freud foram também marcantes para outros domínios científicos, como a Teologia, a Antropologia e a Sociologia, tendo também influenciado largamente o mundo das artes, em campos como a Literatura, as Artes de Representação Visual, o Cinema e a Música. É esta última que motiva a conceptualização deste ensaio, essencialmente edificado sobre o conceito Palcos do Imaginário/ A Música dos Sonhos, conceito dualista do qual a produção artística do compositor romântico alemão Richard Wagner (1813 - 1883) terá sido o exemplo mais que perfeito.
Na realidade, os palcos onde ainda hoje são representadas as óperas de Wagner são também, na verdadeira acepção do termo, autênticos palcos do imaginário daquele notável compositor do século dezanove, onde se desenrolam as autênticas representações vivas do seu mundo dos sonhos, que são as suas monumentais e visionárias óperas, nomeadamente no mítico palco do Festspielhaus, o grande teatro por si idealizado e mandado construir na cidade bávara de Bayreuth, precisamente edificado para ser o palco ideal para a representação das suas esplendorosas óperas. Um dos sonhos estudados e investigados por Freud, publicados no seu livro “A Interpretação dos Sonhos” é precisamente um sonho absurdo, em que o paciente assiste à representação de uma ópera de Wagner, cuja interpretação se prolonga pela noite fora, até às sete e quarenta e cinco da manhã, e na qual a orquestra é dirigida pelo seu maestro do alto de uma enorme e longínqua torre...
A monumental tetralogia “O Anel dos Nibelungos”, composta por quatro óperas (“O Ouro do Reno”, “A Valquíria”, “Siegfried” e “O Crepúsculo dos Deuses”) cuja representação total ultrapassa as quinze horas, constitui, no seu conjunto, um dos mais notáveis e complexos trabalhos de composição de Richard Wagner e da própria história da Música, sendo, acima de tudo, uma história do poder e sobre o poder, edificando um autêntico mundo dos sonhos para cuja construção criativa Wagner se inspirou na mitologia escandinava e na mitologia germânica, numa época, cerca de 1850, em que o compositor, então amigo do anarquista Bakunine, abomina e combate a propriedade, o estado e a religião, proclamando-se comunista, isto cerca de um século antes de Hitler e os intelectuais nazis alemães adorarem e idolatrarem as suas teorias e concepções musicais. Como muito lucidamente escreveu, e se interrogou, o filósofo francês André Glucksman (n. 1937), um dos heróis teóricos do Maio de 68, no seu livro Os Mestres Pensadores, publicado em 1977: “Quem receamos nós encontrar na cena wagneriana? Hitler talvez, mas não menos Lenine, Marx, um certo Freud e anti- freudianos... Wagner rebenta-nos. De riso. Na cara.”
O exemplo mais adequado à ilustração fonográfica deste alinhamento textual é a música orquestral da terceira cena do terceiro acto da ópera de Wagner, “A Valquíria”, a segunda da tetralogia “O Anel dos Nibelungos”. Nessa cena, o deus Wotan, sabendo-se traído pela sua valquíria Brunhilde, condena esta a cair num sono profundo, aprisionada num rochedo, que a pedido desta é por esse deus supremo envolvido em chamas, até ao dia, em que tal como reza a sentença de Wotan, essa labareda mágica seja dominada por um herói livre e sem temor, que beije Brunhilde e a traga de novo à vida... A minha interpretação favorita desta composição foi gravada em Outubro de 1968, pela Cleveland Orchestra, então superiormente dirigida pelo Maestro George Szell.
2. As fundamentações teóricas de Sigmund Freud influenciaram praticamente todo o mundo intelectual e científico ocidental. A Psicanálise, metodologia científica de que foi criador, influenciou fortemente o mundo das artes e alguns dos seus movimentos mais marcantes do passado século, casos do Dadaísmo, do Surrealismo e do Expressionismo Abstracto. Essa influência freudiana na arte pode detectar-se, por exemplo, nas obras poéticas de Tristan Tzara, André Breton ou Paul Éluard, na pintura de Salvador Dali, Marcel Duchamp ou Giorgio di Chirico, ou no cinema de Luís Buñuel, Jean Cocteau ou René Clair, todos eles, tal como muitos outros artistas, seguindo quase à letra as teses e posicionamentos do Manifesto do Surrealismo, publicado por Breton em 1924, no qual era proposta “uma filosofia da arte como expressão do subsconsciente” .
Curiosamente, em 1939, a poderosa produtora cinematográfica norte-americana Metro Goldwin Mayer e o competente cineasta Victor Fleming acabariam por dar uma nova expressão cinematográfica ao mundo dos sonhos, no seu filme O Feiticeiro de Oz, no qual a influência freudiana de A “Interpretação dos Sonhos” era substituída pela influência simbológica atribuída ao arco-íris, descrita pelos catedráticos Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, no seu “Dicionário dos Símbolos”, como “caminho e mediação entre a terra e o céu” e como “ponte de que se servem deuses e heróis entre o outro mundo e o nosso”.
O filme “O Feiticeiro de Oz” relata-nos a história de uma menina, Dorothy, interpretada por Judy Garland, que nesse ano seria galardoada, pela Academia de Hollywwod, com um óscar especial “pela sua destacada interpretação nesse filme” como Actriz Juvenil do Ano. Dorothy vive numa quinta, com a sua tia Emily e os seus empregados Zeke, Huck e Hichory, tendo por companhia preferida o seu cão Toto. Dorothy e o seu cãozinho têm, porém, uma inimiga figadal, a vizinha Miss Gulch, que a toda a hora os persegue, arranjando também assim problemas com a tia Emily, por essa via forçada a repreender, quase permanentemente, Dorothy. Num desses dias, a tia Emily repreende Dorothy, dizendo- lhe mesmo: “Arranja mas é um cantinho onde não arranjes problemas!”. É então que Dorothy canta Over The Rainbow, a tocante canção cujos primeiros versos dizem: “Algures para lá do arco- íris/ Para lá do firmamento/ Há uma terra de sonho/ Um país de encantamento”, canção essa que é a autêntica matriz de um filme cuja acção se passa, a partir daí, durante um movimentado e atribulado sonho, passado em Oz, durante o qual Dorothy vai procurando a Cidade da Esmeralda, onde lhe dizem viver o milagroso Feiticeiro de Oz. Sempre perseguida pela Fada Má do Oeste, que afinal não é mais que a própria Miss Gulch, mas sempre apoiada pela fada boa, Dorothy acaba por ter como inseparáveis companheiros dessa viagem três seus novos amigos: o Espantalho, o Homem de Lata e o Homem Leão, que afinal não são mais do que os seus velhos amigos da vida real: Zeke, Huck e Hichory. É claro que neste filme/sonho tudo acaba bem, ficando também para a história a sua sugestiva música original, também premiada pela Academia, tal como a onírica canção “Over The Rainbow”, cujos autores foram o letrista E.Y. Harburg e o compositor Harold Arlen.
Relembrando-se sempre, quando se revê aquele filme, a versão original de “Over The Rainbow”, cantada por Judy Garland, sabe-se também que este é um dos temas musicais sobre os quais foram concebidas mais e mais variadas versões, servidas pelos mais diversificados e multifacetados arranjos, orquestrações e interpretações, oriundas de tipologias musicais como a música ligeira, o jazz ou a nova música improvisada. É desta última que provém a minha versão favorita de “Over The Rainbow”, interpretada pela cantora norte-americana Linda Sharrock e por dois notáveis instrumentistas austríacos: o saxofonista Wolfgang Puschnig e o pianista Uli Scherer, gravada no seu disco “... And She Answered:”, de 1989.
3. Num ensaio cujo pretexto conceptual é o relacionamento entre a arte musical e o mundo dos sonhos, tendo como pressuposto inicial a já centenária publicação do livro “A Interpretação dos Sonhos”, de Sigmund Freud, é para mim lógico voltar agora a minha atenção para o universo criativo de Walt Disney (1901- 1966), um senhor norte-americano que dedicou grande parte da sua vida à criação de referências para o imaginário infantil, ou melhor escrevendo, a tentar ajudar-nos a ultrapassar as fronteiras entre a realidade e o mundo dos sonhos.
Além da criação de um conjunto de notáveis e inesquecíveis produções artísticas e personagens da banda desenhada e do cinema infantil, cujo primeiro grande marco surgiu em 1928, quando criou o Rato Mickey, a obra de Walt Disney ficou também para sempre assinalada e notabilizada pela construção de uma série de parques de diversões, cuja concepção criativa tinha como inalienável princípio o de esses parques serem locais onde pais e filhos se pudessem divertir em simultâneo, ou seja, entrar conjuntamente num suposto mundo dos sonhos. A esses mundos dos sonhos por si idealizados e edificados deu Walt Disney a designação de Dysneyland, tendo o primeiro desses seus fantásticos parques de diversões sido inaugurado em 17 de Julho de 1955, na cidade norte- americana de Anaheim, situada na pujante California, a que outros se seguiram, nomeadamente o de Tokyo, no Japão, inaugurado em 1983, que foi o primeiro Disneyland Park a ser montado fora dos E.U.A.. Seria já na última década do século vinte que esses mundos dos sonhos criados por Walt Disney chegariam à Europa, quando em 1992 foi inaugurada, na localidade francesa de Marne-la-Valle, a Disneyland Paris, autêntico polo de atracção que desde então tem diariamente encantado os seus inúmeros visitantes.
Além de uma série de autênticas e oníricas representações vivas de personagens e situações do universo disneysiano, que ali convivem com os seus visitantes, esse enleante mundo dos sonhos que é a Disneyland Paris encanta também todos os que a visitam com a insinuante Parada Eléctrica Nocturna, que antecede a celebrizada sessão de fogo-de-artifício que encerra todas as noites as atracções da Disneyland Paris. Essa movimentada parada consiste num electrizante desfile animado de trinta e três esplêndidas e vistosas viaturas, auto-iluminadas por um total de setecentas e cinquenta mil lâmpadas eléctricas, que circulam, encantam e quase hipnotizam o numeroso público que assiste a esse seu desfile ao longo da chamada Main Street, primeira e principal rua de todo o parque.
Esse fabuloso e imperdível desfile é acompanhado por música para esse efeito especialmente composta e interpretada em computador pelo alemão Michael Obst, um dos maiores vultos mundiais da música para computador. As primeiras experiências musicais em computador foram efectuadas durante a década de 1950 do passado século, nos E.U.A. , pelos investigadores Martin L. Klein e Douglas D. Bolitho. Em 1957, o Professor Lejaren A. Hiller, da Illinois University, também naquele país, apresentou publicamente a sua “Suite Illiac”, primeira produção musical integralmente concebida em computador. A partir da década seguinte o computador passou a ser, além de um precioso auxiliar, um quase ilimitado instrumento musical, de que muitos compositores da música culta contemporânea se passaram a servir como suporte da sua imaginação criativa. Esse foi, por exemplo, o caso de luminárias como Xenakis e Stockhausen, ou de compositores ainda mais especializados na produção de sínteses sonoras em computador, ou seja, na composição e interpretação da chamada nova música para computador, como é o caso de Barry Truax, John Chowning, Michael McNabb, Viñao ou Michael Obst, que foi, tal como já referimos neste texto, o responsável criativo pela música da Parade Electrique de Main Street, a apocalíptica parada eléctrica nocturna da Disneyland Paris. É claro que uma das memoráveis recordações que se podem trazer daquele mundo dos sonhos é a própria gravação em disco desta composição de Michael Obst!...
4. “Agitação ou opressão durante o sono” , “sonhos maus” ou “sonhos aflitivos” , são algumas das expressões utilizadas no “Novo Dicionário Compacto da Língua Portuguesa”, de António de Morais Silva, para caracterizar o pesadelo, ou aquilo a que empiricamente aqui poderemos chamar: o lado mau dos sonhos. No seu livro “A Interpretação dos Sonhos”, Freud refere a ligação do pesadelo “ao desenvolvimento da angústia” , relatando também “todas as obscuridades que o rodeiam” , defendendo que “o estudo do pesadelo” , embora se possam estabelecer alguns “pontos de contacto” entre a sua interpretação e “o tema do processo do sonho” , “pertence à psicologia das neuroses” . Porém, na sua mesma obra, Freud defendia que “a angústia neuropática” inerente ao pesadelo “tinha uma origem sexual” , demonstrando-o seguidamente com algumas suas análises sobre “alguns sonhos de angústia” . Curiosamente, posso aqui referir que Freud tinha exposta, na parede principal do seu consultório de Londres, uma reprodução do expressivo quadro O Pesadelo, pintado em 1781 pelo anglo-suiço Henry Fuseli (1741- 1825).
Uma simbólica interpretação desse obscuro mundo dos pesadelos pode ser também encontrada no universo fortemente esquizofrénico e angustiante da produção literária do escritor checo Franz Kafka (1883- 1924), universo onírico recheado de referências opressivas e insólitas, que aquele autor referia ter idealizado tentando escrever sobre o seu próprio pai, característica atitude de raiz edipiana, puramente inspirada pelo pensamento e pelas teorias de Freud. Romances de Kafka como “A Metamorfose”, que retrata as agruras de Gregor Samsa, um caixeiro-viajante que um dia acorda transformado em insecto, ou “O Processo”, em que um outro indivíduo, Joseph K., é detido, julgado e condenado sem nunca chegar a saber porquê, poderão ser apontados como perfeitos exemplos de pesadelo, ou “sonho de angústia” .
Esse opressivo universo kafkiano parece ter também sido fonte inspiradora da produção musical e performática que o polémico e desassombrado rocker norte- americano Marilyn Manson tem desenvolvido desde a última década do século passado. Assumindo também declaradas e incontornáveis influências filosóficas de ordem niilista e afirmando-se desse modo como um natural seguidor dos preceitos filosóficos de Nietzsche (1844-1900). Marilyn Manson tem-se também caracterizado, tal como os seus inspiradores Kafka, Nietsche e Freud, como aquilo que este último chegou a definir, num seu sensato juízo, ou seja, como uma daquelas personalidades “que têm perturbado o sono do mundo” . Isso mesmo pode ser confirmado pelo simples facto de no princípio do século vinte, a chamada sociedade bem pensante daquela época ter mimoseado negativamente aquelas três importantes figuras da cultura universal em termos semelhantes aos que muitos actualmente utilizam para tentar denegrir a imagem de Marilyn Manson no início deste novo século.
Um característico exemplo do vibrante e incontornável rock niilista de Marilyn Manson e dos seus sequazes, ou seja, a sua banda, é a sua apocalíptica versão de “Sweet Dreams (Are Made of This)”, incluída no seu álbum “Smells Like Children”, de 1995. Nessa viperina versão, o anteriormente inocente tema dos Eurythmics é literalmente transformado em puro pesadelo!
5. Lidos estes tópicos, perguntará o leitor mais atento e perspicaz: “E então, qual será o papel do Hitchcock neste filme?” . A minha resposta repetirá quase sempre que esse filme será eternamente “Spellbound” (A Casa Encantada), essa permanentemente eterna viagem cinematográfica ao mundo dos sonhos... E quanto ao papel do velho Alfred, ele será sempre muito mais que o de contratar a não menos devassa Grace como actriz principal, o não menos louco Dali como demencial cenógrafo ou o não menos libidinal Bernard Herrmann como voluptuoso compositor da apocalíptica música de quase todos os seus filmes...
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