

1. Este texto reverte conceptualmente para a área da chamada música popular urbana, razão pela qual não são nele protagonizados vultos da música culta portuguesa cuja produção musical inclui composições que nele poderiam ser integradas, caso o seu âmbito fosse de enquadramento assumidamente mais genérico. Esse seria o caso de Fernando Lopes-Graça, cujo “Requiem Pelas Vítimas do Fascismo em Portugal” já protagonizou outro meu trabalho sob a mesma intitulação, e de Jorge Peixinho, cuja composição “CDE” já foi alvo de idêntico procedimento da minha parte, ambas em locais e contextualizações mais adequadas às suas tipologias musicais. A ópera “Os Dias Levantados”, de António Pinho Vargas, com libreto de Manuel Gusmão, será proximamente alvo de meu idêntico procedimento, num enquadramento similar ao das produções musicais anteriormente referidas. Sublinho aqui novamente que neste texto apenas trabalhei tipologicamente na área da música popular urbana, avisando de entrada que nele apenas será referida música inteiramente relacionada com o espírito da época da chamada Revolução dos Cravos. Comemorando-se proximamente o 32º aniversário do 25 de Abril, este será, portanto, um texto de cravo vermelho ao peito!
2. Paulo de Carvalho é uma figura intimamente relacionada com a Revolução de Abril, dado que a sua canção “E Depois do Adeus” foi a primeira senha utilizada aos microfones dos Emissores Associados de Lisboa, dando sinal para o início das movimentações militares que haveriam de conduzir o Movimento das Forças Armadas à vitória, em 25 de Abril de 1974, pondo fim à ditadura que havia governado Portugal durante quarenta e oito anos. Todavia, o seu tema musical aqui referido é um seu outro tema, gravado e editado em 1970, quando Paulo de Carvalho iniciou a sua carreira a solo, depois de ter sido baterista e vocalista de agrupamentos como os Sheiks, o Thilo’s Combo e o Fluido. Essa canção chama-se “Waiting For The Bus” e é a face B de um raríssimo single em vinilo, em que Paulo de Carvalho cantava, em inglês, temas de autoria do compositor espanhol Manolo Diaz, que então era uma das traves-mestras do conhecido agrupamento vocal Aguaviva. A melancolia inerente a esta canção é um retrato marcante do tristonho ambiente que se vivia neste país, numa época em que além da ditadura e da repressão política e social governamentalmente exercidas sobre a sua população, esta era ainda quase forçada a viver praticamente isolada do mundo e de quase toda a cultura universal, suportando ainda posicionamentos ridículos do poder vigente, como era o caso de a venda de Coca-Cola ser então proibida em Portugal, sob a provinciana alegação de que entre os seus ingredientes se incluía a droga de denominação semelhante. Em “Waiting For The Bus”, um amargurado Paulo de Carvalho espera sombriamente por um autocarro e por uma vida muito melhor… Antes do 25 de Abril, claro está!
3. José Afonso e a sua arte criativa são indissociáveis do chamado Espírito de Abril, não só pelo seu empenhamento político de sempre, mas também pelo histórico facto de uma das suas canções ter servido de segunda senha e sinal definitivo para o arranque das tropas revoltosas sobre Lisboa, na memorável madrugada de 25 de Abril de 1974. Contudo, o tema de José Afonso que aqui refiro é uma canção também gravada em França, em 1971, que seria editada em disco no ano seguinte, integrando e intitulando o álbum “Cantigas do Maio”, ainda hoje por muitos considerado o melhor disco de sempre da música popular portuguesa. Nesse disco, José Afonso começou a enveredar por uma instrumentação claramente mais conotada com a pop e pelos inspirados caminhos da inspiração surrealista no que respeitava às letras das suas canções, revelando também novamente naquela sua produção artística a preocupação e o cuidado desde sempre por si evidenciados no que respeitava à pesquisa e manipulação de temas tradicionais da música popular portuguesa. “Cantigas do Maio” é uma das mais notáveis canções de José Afonso, tendo sido elaborada a partir de um refrão popular e beneficiada por um fabuloso arranjo musical de José Mário Branco, que José Afonso conhecera dois anos antes, em Paris.
4. No mesmo ano em que José Afonso compôs e gravou “Grândola Vila Morena”, 1971, realizou-se em Cascais a primeira edição do seu Festival de Jazz, acontecimento que se tornaria marcante para um dos mais qualificados músicos daquela tipologia, o contrabaixista norte-americano Charlie Haden, que nesse ano actuou pela primeira vez em Portugal, integrando o quarteto de Ornette Coleman. Durante a sua actuação, quando apresentava o seu tema “Song For Che”, Charlie Haden dedicou esse tema aos movimentos de libertação que àquela época lutavam pela independência das colónias portuguesas de África. Desse facto resultou então um autêntico pandemónio no Pavilhão de Cascais, com grande parte do público daquela sala a aplaudir até à exaustão aquela dedicatória, em aberto confronto com o carácter repressivo do regime político que então governava Portugal. No final daquele concerto, Charlie Haden foi imediatamente detido e interrogado por inspectores da PIDE, tendo sido apenas posteriormente libertado devido à intervenção directa do representante do governo norte-americano em Lisboa, tendo sido, contudo, expulso do nosso país, atitude que então causou enorme estupefacção em inúmeros países democráticos.
Esse facto influenciou definitivamente a carreira artística de Charlie Haden, que em 1970 havia fundado uma orquestra que dedicava essencialmente a sua arte à interpretação de música revolucionária, a Liberation Music Orchestra. Foi precisamente por essa via que Charlie Haden e essa sua orquestra gravaram e editaram, em 1983, um outro disco dedicado às músicas da revolução, que, entre outras, incluía uma versão instrumental da canção “Grândola Vila Morena”, de José Afonso, em homenagem à Revolução de Abril. Curiosamente, a faixa que nesse disco se seguia àquela épica canção portuguesa era um tema muito celebrizado em Portugal, após o eclodir da Revolução dos Cravos. Esse tema, “El Pueblo Unido Jamás Será Vencido!”, havia sido anteriormente celebrizado no Chile, então governado por Salvador Allende, em 1973, pelo cantor Sérgio Ortega e pelo agrupamento Quilapayun, tendo-se posteriormente transformado em hino e slogan revolucionário um pouco por todo o mundo…
5. Uma das primeiras e melhor conseguidas homenagens musicais ao nosso 25 de Abril surgiu do lado de lá do Oceano Atlântico, no Brasil, por obra e graça do cantor e compositor Chico Buarque. Sob a intitulação “Tanto Mar”, a difusão dessa canção foi, muito simbolicamente, proibida no próprio Brasil, até 1978, dado que após a Presidência de Juscelino Kubitschek (1956-1961), a renúncia de Jânio Quadros (Agosto de 1961) e a curta governação de João Goulart (1961-1964), as forças armadas brasileiras tomaram o poder em Março de 1964, instaurando um regime de excepção, que refreou as liberdades democráticas, fazendo-se também acompanhar pela óbvia comissão de censura que usualmente acompanha todos os regimes políticos ditatoriais, apregoem-se eles de direita ou de esquerda… “Tanto Mar” reflectia precisa e musicalmente a simpatia dos intelectuais brasileiros pelo que então se passava em Portugal.
6. O primeiro L.P. editado pelo cantor e compositor Sérgio Godinho após o 25 de Abril recebeu o título “À Queima Roupa”, mas, embora aquele disco tenha sido colocado no mercado após a Revolução dos Cravos, a verdade é que a maior parte dos temas nele incluídos havia já sido composta e gravada em Vancouver, no Canadá, antes daquela data. Efectivamente, Sérgio Godinho viveu no Canadá, entre o final de 1971 e o primeiro semestre de 1974, depois de ter residido em Paris, para onde emigrara em 1967, sob forte influência da leitura do romance “On The Road” (Pela Estrada Fora), de Jack Kerouack. Esse género de emigração motivada por influências de índole cultural foi, juntamente com as dificuldades financeiras e a fuga à guerra colonial, uma das maiores motivações que, antes do 25 de Abril, levaram muitos portugueses a emigrar para o estrangeiro. A emigração, embora de um modo indirecto, é o assunto de “Assim como um postal para o Canadá”, uma das mais belas canções daquele disco de Sérgio Godinho, que nela canta acompanhado ao piano por Pedro Osório.
7. O álbum “P’ró Que Der e Vier” foi o primeiro disco lançado após o 25 de Abril pelo cantor e compositor Fausto. Curiosamente, ou talvez não, a maior parte dos temas daquele disco havia sido composta e gravada antes daquela data, mais precisamente em Madrid, na vizinha Espanha, numa série de sessões que duraram até uma semana antes do eclodir da Revolução dos Cravos. Cantores de intervenção, ou baladeiros, foi o epíteto utilizado para definir um género de artistas que, à imagem do Bob Dylan e da Joan Baez da década de 1960 e utilizando apenas a sua própria voz e uma simples guitarra, subiam a qualquer palco para interpretar, umas vezes melhor e outras pior, as suas canções políticas e revolucionárias. Antes e após a Revolução de Abril, o nosso país foi literalmente invadido por esse género de artistas, que o público ouvia, por vezes acriticamente, consumindo muitas vezes gato por lebre. De entre todos esses cantores de intervenção, os autênticos, ou seja, aqueles que tinham efectivamente valor e qualidade artística eram uma minoria, cuja valia, com o passar do tempo, acabou por colocá-los no lugar de destaque a que tinham direito. Fausto foi precisamente um desses bons valores que, começando por se dar a conhecer como cantor de intervenção, se confirmaria posteriormente como um dos mais qualificados artistas da nossa música popular urbana, essencialmente após a edição da sua verdadeira obra-prima: “Por Este Rio Acima”, em 1982. Um dos temas mais seguros e consistentes do álbum “P’ró Que Der e Vier” é a canção “Carta de Paris”, composta a partir do belíssimo poema homónimo de Daniel Filipe, que Fausto honrou com uma bonita música e um arranjo com a qualidade a que sempre nos habituou. Uma das curiosidades interpretativas dessa canção é o facto de Fausto ter sido acompanhado por músicos espanhóis e pelo incontornável José Afonso, num papel muito especial, ou seja, percutindo ironicamente uma folha de papel na sua barba de três dias…
8. De entre todos os discos editados em Portugal nos primeiros meses após o 25 de Abril, o mais esperado era, sem dúvida, o primeiro L.P. lançado pelo cantor e compositor José Afonso após a Revolução dos Cravos. Com uma vida marcada em grande parte pela sua persistente luta contra o regime de Salazar e Caetano, José Afonso era um autêntico símbolo vivo da resistência contra aquele regime político, sendo também, consequentemente, um inquestionável símbolo da Revolução de Abril, de que uma das suas mais emblemáticas canções, “Grândola Vila Morena”, foi sinal e senha para o arranque das tropas revoltosas que há 32 anos destituíram do poder Américo Thomaz, Marcello Caetano e os seus sequazes. Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas, José Afonso exerceu o professorado, carreira que desempenhou em várias localidades, entre as quais Alcobaça, acabando por ser expulso do ensino oficial em 1968, por motivos de ordem política. A sua carreira artística iniciou-se no final da década de 1940, quando frequentava o 6º Ano liceal, começando por cantar em serenatas e outras deambulações boémias e académicas. Dedicou-se depois ao Fado de Coimbra, evoluindo posteriormente para a balada coimbrã e daí para a canção de intervenção, de que foi um dos melhores, senão o melhor, entre os autores e intérpretes portugueses.
“Coro dos Tribunais” foi o título do primeiro disco editado por José Afonso após o 25 de Abril, tendo sido gravado em Londres, durante os meses de Novembro e Dezembro de 1974, com arranjos e direcção musical de Fausto. Nessa sua produção artística, José Afonso voltava a enveredar pelo surrealismo, opção artística por si iniciada em 1971, no seu álbum “Cantigas do Maio”, e aprofundada dois anos mais tarde na sua obra discográfica “Venham Mais Cinco”, atitude criativa que, àquela época, lhe mereceu mordazes críticas negativas de alguns sectores mais puristas e conservadores da nossa música popular urbana. “Tenho Um Primo Convexo” é um dos mais preciosos temas incluídos por José Afonso em “Coro dos Tribunais”, sendo marcado pela sua desassombrada opção estética surrealista e pelo facto de os seus primeiros 4 compassos serem baseados num tema musical de Phototi!
9. Este périplo pelas Músicas (de Antes e Depois) do 25 de Abril chega agora ao movimentado Verão Quente de 1975, recordando e prestando homenagem a um dos mais interessantes agrupamentos de música popular surgidos neste país após a Revolução dos Cravos: o G.A.C.- Grupo de Acção Cultural Vozes na Luta.
O G.A.C. foi fundado em casa de José Jorge Letria, no dia 30 de Abril de 1974, precisamente seis dias após o golpe de Estado que devolveu a liberdade aos portugueses, então ainda sob a designação de C.A.C.- Colectivo de Acção Cultural. Essa foi a data em que o cantor e compositor José Mário Branco, um dos mentores do movimento, regressou do seu exílio em França, e além dessa imprescindível figura da música popular portuguesa estiveram ligadas àquele movimento artístico personalidades como Manuel Alegre, João Loio, Eduardo Paes Mamede, Afonso Dias, Luís Pedro Faro, Nuno Ribeiro da Silva e a violoncelista Luísa Vasconcelos, entre outros.
O C.A.C. acabou por se desintegrar pouco tempo depois, devido a divergências de ordem ideológica entre os seus elementos afectos ao P.C.P., ao P.S. e à extrema-esquerda, após o que os seus elementos afectos a esta última o reformularam, transformando-o então no G.A.C.- Vozes na Luta, que desde logo se assumiu como frente musical de um partido político: a U.D.P.. Apesar dessa declarada ligação política, acabou por ser de fundamental importância o trabalho musical do G.A.C., cuja obra de recolha e manipulação seguiu vincadamente o seu objectivo de “abrir o caminho para a integração da música tradicional num contexto mais socializado, de braço dado com o canto revolucionário” . Essa meritória produção artística do G.A.C. foi gravada e editada em históricos discos como o L.P. “A Cantiga é Uma Arma e Pois Cante!!”, tendo a sua composição mais marcante sido o tema “Alerta!”, apenas editado num single produzido, gravado e editado em 1975.
Embora tenha sido apresentada como uma produção artística colectiva, “Alerta!” é, porém, uma característica composição do seu genuíno autor, José Mário Branco. Assumindo-se como uma pura canção revolucionária, “Alerta!” foi um autêntico hino da nossa extrema-esquerda, que, curiosamente, concorreu naquele ano ao Festival RTP da Canção, num ano em que o júri daquele festival foi formado por críticos musicais e pelos próprios autores e compositores das canções concorrentes, entre os quais se encontrava José Mário Branco. Num ano em que aquela votação foi completamente aleatória, e após ter publicamente declarado “que mesmo que ganhasse, a canção do G.A.C. nunca participaria na palhaçada do Festival da Eurovisão” , José Mário Branco atribuiu a votação máxima ao seu “Alerta!” e deu 0 votos a todas as outras canções concorrentes, ironizando seguidamente que a sua havia sido “uma declaração de voto completamente marxista-leninista!” .
10. Nesta lista não exaustiva de música directa ou indirectamente relacionada com o 25 de Abril, não poderia faltar uma referência ao L.P. “Hoje Há Conquilhas, Amanhã Não Sabemos”, da Banda do Casaco, um histórico álbum da nossa música popular urbana, gravado e editado em 1977.
Esse terceiro disco da Banda do Casaco, importante agrupamento infelizmente já extinto, é ainda hoje quase unanimemente reconhecido como uma das mais fabulosas produções artísticas daquela tipologia no nosso país, posicionamento com o qual estou muito logicamente de acordo. O jornalista Rui Catalão escreveu mesmo, num seu artigo publicado no diário Público, que aquele disco é “a mais ilustre das obras perdidas da discografia portuguesa” .
Tendo sido fundada após o 25 de Abril, por dois compositores: o letrista António Pinho, que então saíra da não menos histórica Filarmónica Fraude, e o músico Nuno Rodrigues, que anteriormente integrara os Musica Novarum, a Banda do Casaco assumiu-se então como um agrupamento contra a corrente, então dominante em Portugal, dos chamados cantores de intervenção, abrangendo na sua formação instrumentistas oriundos da música popular, do rock, do jazz e da música erudita portuguesa, diversidade que muito contribuía para a originalidade e a indiscutível qualidade da Banda do Casaco.
Após ter gravado e editado os seus dois primeiros álbuns, a Banda do Casaco apresentou-se na sua plenitude criativa e interpretativa em 1977, quando a já desaparecida Imavox editou esta sua terceira produção discográfica, que além da sua incontestável qualidade artística e criativa ficaria também para sempre assinalada na História da Discografia Portuguesa pelo simples e arreliador facto de terem pura e simplesmente desaparecido as suas masters ou gravações originais, o que impossibilita a sua reedição em vinil ou em C.D., deixando apenas esta notável obra da nossa música popular urbana ao alcance dos raríssimos proprietários que ainda conservam os discos originais…
Uma das composições mais fabulosas que integram o precioso “Hoje Há Conquilhas, Amanhã Não Sabemos” é a belíssima peça instrumental “Água de Rosas”, que conta com a participação especial, como músico convidado, do oboísta alcobacense António Serafim, ainda hoje conhecido como um dos melhores oboístas portugueses de sempre.
11. O espírito conceptual que preside a um texto como este não ficaria completo caso nele fosse esquecida uma outra relevante produção discográfica portuguesa, logicamente enquadrada no âmbito de um trabalho que se assume como um texto de cravo vermelho ao peito. Refiro-me ao mítico e homónimo álbum discográfico do Quarteto 1111, cuja distribuição e venda em Portugal foram proibidas pela Comissão de Censura e pela PIDE em Março de 1974, tendo mesmo muitos dos seus exemplares sido apreendidos nas próprias discotecas… Nesse emblemático disco, o agrupamento fundado e liderado pelo carismático compositor, cantor e teclista José Cid revelava-se então como um sólido e criativo representante nacional da ambiência estética então dominante no rock britânico, assumindo-se como uma banda digna de enfileirar no rol das mais consistentes bandas do género. Apenas aquela proibição e o facto de viverem e realizarem a sua produção artística neste canto então esquecido e politicamente ignorado da Europa os impossibilitou de enfileirarem ao lado de bandas como os Beach Boys, os Kinks, os Love, os Pink Floyd ou os próprios Beatles nas grandes parangonas jornalísticas mundiais da sua época…
Pouco tempo depois de ter impressionado muito favoravelmente o público, a crítica e até mesmo o meio radiofónico nacional, com a edição do seu não menos histórico single “A Lenda de El-Rei D. Sebastião”, o quarteto liderado por José Cid resolveu intervir também a nível politico neste seu L.P. homonimamente intitulado “Quarteto 1111”, abordando nas suas letras temas cuja simples discussão era então proibida, como a guerra colonial e a emigração de portugueses para o estrangeiro. O regime político então vigente em Portugal não perdoou o facto de naquele disco as letras de algumas canções do Quarteto 1111 contestarem abertamente o colonialismo português e evidenciarem os problemas vividos pelos emigrantes portugueses em países como a França, e quem acabou por ficar prejudicado foi o público português que aquela anti-democrática proibição afastou durante alguns anos da fruição de uma excelente produção discográfica, que apenas alguns anos após a Revolução de Abril seria reeditada, em C.D., permitindo efectivamente recordar que José Cid também foi um herói da luta pela Democracia em Portugal...
12. Termino com uma espécie de pequena nota de rodapé, nomeando algumas figuras da música popular urbana portuguesa intelectual e criativamente conotadas com o Espírito de Abril, não referidas neste meu trabalho por minha clara opção conceptual: Adriano Correia de Oliveira, Carlos Paredes e Luis Cília são três acertados exemplos desse arrojado posicionamento político-cultural, não podendo também aqui ficar esquecidos os Nirvana, uma banda portuense cujos corajosos “Ensaios Rock” chegaram a obrigar a intervenções da PIDE, ainda antes da libertadora Revolução dos Cravos…
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