

Uma recente pesquisa sobre a personalidade artística do teclista britânico Tim Blake conduziu- me ao conhecimento de uma emblemática e peculiar banda da pop progressiva britânica: os Gong. Curiosamente, essa banda formou- se em França, em 1967, tendo sido seu principal mentor o guitarrista, vocalista, compositor e performer australiano Daevid Allen, também fundador dos notáveis Soft Machine, que àquela época ainda integrava. Vivendo então naquele país por motivações de ordem legal, Daevid Allen conheceu em Paris uma professora britânica da Sorbonne, Gilli Smyth, que se lhe juntou naquele projecto, assumindo o papel de sua vocalista. Foi nesse duo que se centrou o núcleo central da nova banda, cujo primeiro álbum, “Magick Brother, Mystic Sister”, editado em 1970, revelava já a integração tipológica da sua sonoridade na chamada pop progressiva, embora Daevid Allen definisse os Gong como uma banda de psychadelic space rock. Após o Maio de 68 os Gong foram viver para Maiorca, onde conheceram o saxofonista Didier Malherbe, que se lhes juntou, regressando posteriormente todos a França, facto que proporcionou novos desenvolvimentos à sua carreira, incluindo um maior reconhecimento, o que lhe facultou uma bem sucedida participação na primeira edição do Glastonbury Festival.
Em 1973 entrou para os Gong o guitarrista Steve Hillage, tendo essa formação da banda então gravado e editado o seu álbum discográfico melhor conhecido e recebido: “Rádio Gnome”.
Essa produção musical dos Gong era uma trilogia, na qual começaram também a desenvolver os parâmetros da sua Gong Mythology, característica mitologia pop que enquadrava e envolvia duendes e ficção científica, desenvolvendo a apologia do ácido lisérgico e do chá de cogumelo, seguindo uma inquestionável linha de pensamento humorístico…
Essa ambiência mitológica criada pelos Gong envolvia também o surgimento de um suposto Planeta Gong, habitado pelos chamados Pot Head Pixies, designação traduzível pela denominação de duendes maconheiros. Esses mitológicos seres idealizados por David Allen e Gilli Smyth viviam num simbólico sistema de Floating Anarchy (anarquia flutuante), fazendo- se transportar nos seus vaporizantes bules voadores e ouvindo a sua etérea Radio Gnome Invisible. Em 1975, Daevid e Gilli abandonaram esse seu projecto músico- filosófico, tendo os Gong continuado sob a direcção de Steve Hillage, que abandonaria também a banda, logo após a sua digressão de Novembro daquele ano pelo Reino Unido.
A partir de 1976 e do seu álbum “Shamal”, os Gong continuaram a sua carreira sob a batuta do baterista Pierre Moerlen, cuja orientação implicou a opção estética da banda pela fusão e pelo chamado jazz rock. Após uma década e meia em que a carreira dos Gong se manteve entre períodos de melhor e pior concretização artística, Daevid Allen e Didier Malherbe acabariam por iniciar uma reformulação do projecto Gong em 1992, concretizada na gravação e edição dos álbuns “Shapeshilter” e “Gnome 4”. O desenvolvimento dessa reformulação dos Gong levou a que a partir de 2004 tivessem passado a utilizar também a designação de Acid Mothers Group, numa época em que assumiram literal, filosófica e musicalmente as influências da música indiana e da música electrónica. Durante a sua já extensa carreira os Gong gravaram para editoras como a independente BYG ou a multinacional Virgin e utilizaram também outras designações como Pierre Moerlen’ s Gong, Mother Gong ou New York Gong. O seu álbum mais recente, “I Am Your Egg”, foi publicado em 2005, estando presentemente a preparar um evento que decorrerá em Amesterdão, no Melkweg, entre 3 e 5 de Novembro deste ano, contando mão só com a presença dos próprios Gong como também com a de todas as outras bandas histórica e pessoalmente ligadas à sua filosofia artística e vivencial.
Esperando que este artigo impulsione nos seus prováveis leitores o mesmo fascínio e prazer pela descoberta de novos mundos artísticos que em mim despertou, aqui deixo seguidamente os nomes de apenas mais alguns dos excelentes instrumentistas que colaboraram com os Gong desde a sua criação até esta data: Allan Holsworth, Barre Philips, Kevin Ayers, Chris Cutler, Bill Bruford, Minu Cinelu, Lol Coxhill, Burton Greene, Earl Freeman, Tim Blake, Graham Clark e muitos outros de primeira apanha…
Como deixa para o vosso provável interesse em penetrar no Planeta Gong aqui fica o endereço do site dos Gong: http://www.planetgong.co.uk
© 2006 JAV