O recente falecimento do genial guitarrista Carlos Paredes reavivou em muitos de nós a memória dos invulgares e preciosos momentos que a sua arte nos foi facultando ao longo de muitos anos. Muito se recordou ultimamente sobre a vida pessoal e artística daquele inesquecível músico, um pouco por toda a parte. Muitas vezes com dissimulada hipocrisia, tentando ocultar que o notável guitarrista morreu praticamente na miséria...
Contudo, a sua arte e a sua obra manter-se-ão certamente inesquecíveis para quem com elas teve (e poderá continuar a ter) a suprema felicidade de contactar. Mesmo para os autênticos abutres editoriais, artísticos e políticos, que contrariamente ao seu autor, continuarão a enriquecer à sua custa...
À indiscutível genialidade criativa de Carlos Paredes sempre corresponde- ram igualmente a sua simplicidade, a sua entrega e o seu espírito de abertura. Quando no início da década de 1960 foi convidado pelo cineasta Paulo Rocha para compor música para um dos primeiros filmes do chamado cinema novo, sob o comum título Verdes Anos, Carlos Paredes comporia uma das obras mais genuínas de toda a história da música portuguesa. Verdes Anos é uma daquelas raras e sublimes composições cujo espírito e cuja intensidade têm conseguido ligar e influenciar várias gerações e diversificados géneros artísticos. A área pop/ rock também não ficou imune a essa autêntica pulsão, facto a que o próprio Carlos Paredes também correspondeu com o seu (sempre) imenso espírito de abertura. Soube-se até, por sua voz, que ele mesmo chegou a dar lições de guitarra a muitos músicos de rock, nomeadamente na sua área de residência, em Benfica, interessando-se mesmo pelo trabalho de muitas bandas pop daquela zona. Numa sua entrevista publicada em Setembro de 1981, no Jornal de Letras e Artes, o sublime guitarrista contava até que um desses seus alunos oriundos da área pop/ rock lhe dissera uma vez, muito simbolicamente, que a sonoridade de Verdes Anos “lhe sugeria uma paisagem portuguesa”...
Todavia, o momento mais marcante desse intercâmbio criativo ocorreria no início da década de 1980, quando uma das mais importantes bandas da pop progressiva portuguesa, os Tantra, incluíram no seu álbum Humanoid Flesh uma adaptação de Verdes Anos para a sua linguagem musical. Adaptação essa que o jornalista António Duarte referiu, no seu livro A Arte Eléctrica de Ser Português- 25 Anos de Rock’n Portugal, como “uma adaptação em tom épico que se curva perante a grandeza com que o genial Paredes ilustrou um filme sobre a geração dos verdes anos”. O próprio Carlos Paredes se revelou então “muito honrado e agradavelmente surpreendido” com essa experiência, acentuando que “se eu fiz uma música para um filme que, sem dúvida nenhuma, falava de problemas da juventude (os terríveis problemas sofridos pela juventude durante o fascismo), e há um conjunto de rock que revela idênticas preocupações, é porque eu lhes dizia alguma coisa, não é verdade?”. Os Tantra surgiram em 1977, tendo sido sempre liderados pelo excêntrico Manuel Cardoso e recordo até que o seu primeiro concerto ao vivo foi apresentado em Alcobaça, no Pavilhão da então Escola Secundária nº 1, num dos carismáticos bailes de finalistas daquela época, deslumbrando os jovens alcobacenses com a sua vistosa adaptação da britânica pop progressiva para uma pop portuguesa que já então começava a arrancar para aquilo a que comercialmente se chamaria rock português. Os Tantra dariam por encerrado aquele seu projecto pouco tempo depois da edição de Humanoid Flesh, seu terceiro e último álbum, ficando também para a história da nossa pop music como a primeira banda portuguesa que conseguiu superlotar o emblemático Coliseu dos Recreios. Infelizmente, essa atitude de recusa terá contribuído para que não se tivesse então concretizado um dos objectivos então conjuntamente assumidos pelos Tantra e pelo próprio Carlos Paredes, o de se apresentarem juntamente em concerto, concretização que teria também certamente ficado histórica!

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