

É impossível falar isoladamente de “Lost in Space”, quando é um disco que carrega uma história que não pode ser negligenciada, se se pretende vislumbrar o que se esconde nas suas profundezas. Por isso recuamos no tempo para recordar essa belíssima construção sobre a condição humana que é a banda sonora do filme “Magnolia” – se é que é justo remetê-lo à condição de banda sonora, quando o próprio filme se assume como adaptação das canções de Aimee Mann.
É fácil de perceber, quando Paul Thomas Anderson pega na personagem de Claudia, em torno da qual basicamente o filme se desenrola (ainda que este seja notoriamente um filme sem personagens “principais” ou “secundárias”), e lhe coloca na boca as palavras da compositora: “Now that I've met you/ Would you object to/ Never seeing each other again. Este é o início de “Deathly”, possivelmente o tema que melhor define do que é que se está aqui a tratar: da condição humana, sem dúvida; mas da matéria bruta, impura e imperfeita, inacabada, onde falha, desencontro, ferida, abandono, perda, se constituem como elementos essenciais de crescimento. Também se fala de amor e da estranheza do mundo, e de como cada indivíduo constitui um universo em si próprio, buscando ligações a outros universos dentro de outros indivíduos. Vejamos como prossegue a canção: “'Cause I can't afford to/ Climb aboard you/ No one's got that much ego to spend. / So don't work your stuff/ Because I've got troubles enough/ No, don't pick on me/ When one act of kindness could be/ Deathly”.
“Magnolia”, sob o ponto de vista das canções de Aimee Mann, é também um tratado sobre a solidão. Mas não sobre algo que se confunde frequentemente com o facto de se estar só – antes sobre uma solidão irreprimível no mais fundo de cada indivíduo, onde se encontram certos lugares inacessíveis, impossíveis de partilhar pelo simples facto de que entre eles se erguem as intransponíveis barreiras que são os corpos. É inevitável então concluir-se que estas canções falam também de pele e, por consequência, de nudez. Um indivíduo que se encontra face à sua solidão fundamental, que nada lhe diz sobre as multidões que possam existir em redor, encontra-se despido. Todas as personagens de “Magnolia” se cristalizam nesta ideia de nudez implícita nas canções.
Mas ao mesmo tempo que estas mostram a condição solitária essencial do ser humano, rapidamente se metamorfoseiam em tentativas de aproximação, delineando a ideia de que um não basta, e cada um precisa sempre de um outro que funcione como um espelho no qual se reflecte. Esta ideia está presente em duas canções: “One”, logo a abrir tanto o disco como o filme (“One is the loneliest number/ That you'll ever do/ Two can be as bad as one/ It's the loneliest number since the number one”) e “Save me”, aquela que, depois de “Deathly”, é a canção que melhor circunscreve a personagem de Claudia (“You look like a perfect fit/ For a girl in need of a tourniquet/ But can you save me/ Come on and save me/ If you could save me/ From the ranks of the freaks/ Who suspect they could never love anyone”).
O que é deslumbrante na construção desta série de canções e no filme a que deram origem, é que está permanentemente presente a contradição primordial, que nos deixa inevitavelmente com uma mensagem ambígua de desencanto e esperança: não podemos esquecer a brutalidade com que Aimee Man nos rasga as ilusões em “Wise up” (“It's not what you thought/ When you first began it/ You got what you want/ Now you can hardly stand it though/ By now you know/ It's not going to stop/ 'Til you wise up”); mas ao mesmo tempo não podemos esquecer um sorriso no rosto de Claudia, no fim de tudo. Não percebemos, não é suposto percebermos, a inquietação existe em nós por defeito, e não precisamos de mais buscas angustiadas.
Dois anos depois surge então “Lost in Space”, sendo certamente inegável que se faz da mesma matéria-prima que a banda sonora de “Magnolia”. E é justamente com este disco que se compreende a imagem criada pela sinopse do filme (“Things fall down. People look up. And when it rains, it pours.”) e por conseguinte se torna absolutamente claro do que se trata aqui: trata-se de “imaginar Sísifo feliz” [Albert Camus]. Estes dois discos de Aimee Mann do princípio ao fim encerram dentro de si o som de pedras a rolar montanha abaixo, montanha acima, perpetuamente pelas entranhas da noite adentro. É essa a condição humana que Aimee Mann nos apresenta no fundo das suas canções: estamos cá, não temos um propósito, não existe um sentido. Limitamo-nos a carregar as nossas pedras montanha acima, sustentados pela expectativa de desfrutar o melhor possível da paisagem das suas encostas. E sendo que um dos maiores dramas da existência é justamente a falta de sentido, daí a importância de “imaginar Sísifo feliz”. É uma resignação à inquietude, ou antes – incorporação da inquietude.
“It’s not” podia ser a última canção de “Magnolia”, um retrato perfeito das pessoas – imaginemo-nos a perguntar “por que é que as pessoas são assim?”, e Aimee Mann responde: “Porque são pessoas.” E aqui desculpem-me pelo abuso, mas incluo a letra completa: “I keep going round and round on the same old circuit / a wire travels underground to a vacant lot / where something I can't see interrupts the current / and shrinks the picture down to a tiny dot / and from behind the screen it can look so perfect / but it's not / so here I'm sitting in my car at the same old stop light / I keep waiting for a change but I don't know what / so red turns into green turning into yellow / but I'm just frozen here in the same old spot / and all I have to do is to press the pedal / but I'm not/ People are tricky you can't afford to show/ anything risky anything they don't know / the moment you try you kiss it goodbye / so baby kiss me like a drug, like a respirator / and let me fall into the dream of the astronaut / where I get lost in space that goes on forever / and you may call the rest just an afterthought / and I believe it's you could make it better/ but it's not”.
Esta é sem dúvida a mais terrível canção de Aimee Mann. Sentimo-nos abalroados e rendidos. Despidos. É uma brutalidade, uma violência sem igual, encerrar um disco com uma canção assim. Nunca mais se é o mesmo depois de “Lost in Space”, e é um lugar a que se volta com cuidado – não nos esquecemos que é um lugar de afecto; mas é também um lugar do medo.
© 2006 RC