

AYERS, KEVIN
Joy Of A Toy (1969)
______________________________________________________________
Costuma-se dizer de Kevin Ayers que ele é o “mister cool” do rock, tendo aliás brindado o mundo com uma canção assim intitulada; podemos defini-lo como uma espécie de Syd Barrett boémio e extrovertido, um carismático “songwriter” ainda bem vivo (felizmente) e (infelizmente) esquecido no sótão dos poderosos da indústria musical. “Joy Of A Toy”, o seu primeiro álbum a solo depois da saída dos Soft Machine é o possível cartão de visita para os neófitos, um dos mais bonitos discos a fechar o ano de 1969.
Vamos lá descerrar as cortinas com “Joy Of a Toy Continued”, a música de feira onde todos marcham alegremente, ilustração adequada para a encantadora capa, daquelas que apetece colocar uma moldura à volta. “Town Feeling” tem o oboé mais bonito do rock, participando da melancolia na voz grave de Ayers “today, the town seems like a tomb, everybody’s locked up in his room, making love, or taking love – who cares?”; e só mesmo Ayers para largar esta incrível dúvida existencial, como se caminhasse sozinho numa manhã de orvalho. Ele e o deslumbrante piano andarilho.
Com a mesma destreza consegue passar para o psicadelismo de “The Clarietta Rag”, um salto colorido e ácido de órgão e guitarra, com a tuba brincando em espasmos galhofeiros (deitem um olho à rã da capa). Em “Girl On a Swing” é o poeta romântico celebrando a doce candura de uma criança brincando num baloiço, um lirismo exemplar percorre o piano e a guitarra, depois um órgão entristecido convida uma estranha voz distorcida deixando perceber que há sempre algo a avariar todo o acto poético, mas Ayers não abandona a clareza triunfando sobre a depressão lisérgica.
Em “Song For Insane Times”, Ayers é o trovador com os pés bem assentes na terra, testemunhando os conturbados finais de 60 e socialmente empenhado tece não muito favorável retrato da altura, ora vejam só “Alice is wearing her sexiest gown but she doesn’t want you to look at her”, confirma-o com tamanha tristeza; afinal essa geração não estava ainda apta para tantas mudanças sociais, as quais ele e tantos outros romanticamente apregoaram. O arranjo é da escola>swing-rock-soft-jazz (que Nick Drake frequentou) e vive do jovial piano “groovy” de David Bedford (sim, o compositor). Duras análises em música com sabor a tarte de maçã.
Já “Stop This Train (Again Doing It)” é o tipo de doidice desconcertante que vai habitar o segundo e algo irregular álbum “Shooting At The Moon”; apesar das dissonâncias e do clima bravio de “jam-session” o tema é uma agradável oportunidade para ouvirmos todos os músicos (entre eles, os seus companheiros dos Soft Machine) a serem criativos na anarquia. Para a história ficam os efeitos da gravação em câmara lenta ou rápida, sugestionando um comboio a vapor.
Onde Ayers é um genuíno especialista é no tipo de baladas (sem ponta de sentimentalismo) como “Eleanor’s Cake (Which Ate Her) ou “The Lady Rachel”, a primeira pode ter um título de arregalar os olhos mas é de uma cristalina e pastoral beleza, com óptimo arranjo Mozartiano para cordas e uma senhora flauta. Por aqui andaram Roy Harper, as irmãs Shirley & Dolly Collins, John Martyn, os Incredible String Band e claro, Barrett e Drake. Um clarinete hiperactivo povoa “The Lady Rachel” e o clangor de um kazoo ranhoso traz desconfiança à história que assume feições grotescas com a entrada de algumas criaturas anómalas e é mais uma princesa que desaparece num castelo assombrado, a juntar às estatísticas dos contos-de-fadas.
“Oleh Oleh Bandu Bandong” é o mesmo estilo de “Stop This Train...”, um desajuizado salto entre farra e fusão, uma comunhão de Soft Machine e algo que ainda estava para vir (horror, gritam os bem pensantes, o rock progressivo!); ou seja, o momento para gastar algumas espiras e ver o que a malta consegue fazer com duas garrafitas de Porto (vintage, claro!). “All This Crazy Gift of Time” é a conclusão do álbum em suave “country-folk”, harmónicas e borboletas, jardineiras de ganga sujas pela terra; preza-se o tempo que decorre gentilmente na esperança que o progresso tecnológico dê um nó.
O que seria uma desgraça neste caso, pois não teríamos as sumarentas faixas bónus da edição EMI (porquê a inestética marca “copy controlled” a estragar a capa?) arrancadas ao pó dos armazéns. Três excelentes versões de “Singing A Song In the Morning” (uma com Syd Barrett na guitarra e “chorus”, uma com “hard-rocking-guitar”, a outra o muito “acid-folk” single oficial) e duas extensas de “The Lady Rachel” (muito mais dramáticas que a versão do álbum, com uma fabulosa renda orquestral, tubas e tudo!). E perdida lá no meio, uma das estupendas canções de Kevin Ayers, “Soon Soon Soon” (só saiu em single e na colectânea da Harvest) com uma batalha “sexy” de violoncelos e guitarras zangadas, ah, e um coro de ninfetas que só poderia sair de um disco do “mister cool”.
© 2006 AJQ