ASTROBOY (THE)
A Derrota da Engrenagem (2007)
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Ligamos o computador. A penumbra do écran (sua excelência) é apenas interrompida pelo debitar de caracteres que, qual manual de instruções, apenas é consultado quando algo corre mal.
Não há problema: podemos sempre culpá-lo pelos nossos males. Afinal de contas, o melhor bode expiatório é aquele que não se consegue defender das acusações. Já assim o era com os romances de cordel (que o diga Charles Bovary), com a rádio e com a televisão, sendo que a principal diferença entre esses bodes velhos e este cabrito de colo, está no grau de interactividade que ele nos permite, ou será que já alguém tentou fazer de um bode, um animal de estimação?
Preferimos então encarar a informática como um cabrito, ou então, para o bem deste exercício retórico, como um cordeiro – não o cordeiro de Deus, mas o cordeiro do próprio Homem, aquele que carrega o peso da nossa própria existência e que ao mesmo tempo a potencia.
A realidade dobra-se: mais do que seres vivos, passámos a ser seres digitais: a nossa página pessoal, as nossas fotos no Flickr, os nossos vídeos no YouTube ou, adaptando um artigo provérbio, quem conhecemos no MySpace.
Estamos e-namorados pela tecnologia e a arte (o cão) segue-nos. Se Robert Wyatt decidisse gravar um segundo volume de “Nothing Can Stop Us”, teria de ter em conta que o conceito de arte popular mudou muito desde 1982. Deixámos de lado as tradições encerradas na geografia, para adoptarmos uma tradição global que nos define, acima de tudo, enquanto indivíduos.
É essa insularidade, esse “si” enquanto unificador de todos os “ses”, que está na base da nova arte popular. Os meios podem até ser escassos, mas a vontade de agregar algo mais ao ser digital, será tão forte como fôra outrora o desejo de conhecer as moças lá da terra, o que em muito terá contribuído para a cultura dos povos.
The Astroboy (aka Luís Fernandes) chama a si o seu quinhão. O seu álbum de estreia, “A Derrota da Engrenagem”, é um belíssimo exemplo de nova arte popular, sendo que não deixa de ser curioso, o paradoxo que ele nos apresenta de forma subliminar: se por um lado é fruto de uma reclusão passada à frente de um computador, por outro, descreve musicalmente paisagens abertas e acções em suspenso, ao mesmo tempo que tenta calcular os domínios da imensidão.
A derrota é aí sinal de tempo em abundância – ou será que são os largos fluxos de pálidas camadas sonoras (dessa palidez esplêndida que concede grandeza aos mármores) que fazem com que este se dobre a cada audição?
Isso agora pouco interessa: a um álbum que nos liberta de outros afazeres, até se lhe perdoam os lugares comuns que explora: a relação conflituosa entre o Homem e a Máquina e a progressiva desumanização/ digitalização das nossas vidas.
Aos poucos, vamo-nos esquecendo disso. A música ludibriou-nos até mais nada podermos dizer. Contudo, os olhos estão cheios de palavras; ouvem-se murmúrios que nos dominam a voz, impedindo-a de quebrar o silêncio que entretanto se instalou. Voltamos a sentir o sangue a circular na carne. As sombras da tarde descem; o sol horizontal divide-se em tremeluzentes manchas luminosas, e por fim, desligamos o computador.

© 2007 SP