ANIMAL COLLECTIVE
Feels (2005)
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Escrever sobre discos recentes pode revelar-se uma tarefa árdua. A profusão de obras musicais de qualidade duvidosa, aumenta a um ritmo cada vez mais elevado, sendo depois gentilmente humedecida por panos almofadados que tentam em vão, tapar o roto do pano.
Raros são os discos como “Feels”, dos Animal Collective, que mostram a ferida aberta e despreocupada sob a acção do sol – daqui a vinte anos ainda alguém discutirá sobre os propósitos deste novelo de cânticos panteístas, tambores magnéticos e ramos quebrados de árvores; tem a marca da intemporalidade, quer-nos parecer.
Estes rapazes de Brooklyn, Nova Iorque, trajados a rigor freak, já não são propriamente novatos; experimentam desde 2000, uma linguagem musical muito peculiar, deliberadamente ecléctica, dura na casca e resplandecente no intestino. Liderados por Panda Bear e Avey Tare, mantiveram em “Feels”, a acessibilidade de “Sung Tongs” (2004), elevando a um certo esmero formal a capacidade pop do grupo, que anteriormente andava ocupado na exploração de longas e/ou dissonantes estruturas que uniam a folk excêntrica e o krautrock impiedoso aos Sonic Youth e Snakefinger (muito esquecido este!). Em “Feels”, revisitam o solarengo espectro vocal dos Beach Boys, encadeando ritmos outrora caros aos Virgin Prunes, convertidos numa espécie de Incredible String Band para o século XXI.
Os berros insistentes de “Grass” apontam com perfeição o alcance estético dos Animal Collective: alguma mensagem subliminar estabelece um equilíbrio entre pânico e alegria; não são garotos inconscientes, bradando aos céus pela abundância de acne estampado nas testas ou excitados pela inconsolável sexualidade – são a nova tribo de mensageiros de Pã, festejando nova joie de vivre, unindo magia e tecnologia com hinos que parecem descuidados - apenas à primeira audição - e drones electroacústicas que, num primeiro contacto, parecem possuídas pelos elementos naturais (vento, água, trovão, respiração...).
Em “Did You See the Words” existe um teclado roufenho a instalar uma breve drone, enquanto ecos difusos de crianças risonhas vão e vêm – extraordinário como parece recomeçar várias vezes: uma percussão que se instala desobedecendo a outra, até tudo se envolver num piano encantador e depois num carrossel vertiginoso de “mad voices”, ruído-cristal e fitas estragadas. E não procurem lirismo em “Flesh Canoe”, já que debaixo dos rasgos sensuais das vozes, há aterradores redemoinhos de detritos sonoros, brilhantemente transformados em corpos que se arrastam em supressão de sentidos – alguém se arrisca a decifrar a massa que se revolve na lama?
Os Animal Collective espantam-nos com 1001 enigmas incrustados em estratos digitais como fósseis traiçoeiramente apanhados por correntes de lava. Em “The Purple Bottle” voltam as cadências tribais: um “Deus das Moscas” magnificamente retratado em danças hedonistas à volta da fogueira; aleluias transbordando de sexualidade marcando pegadas na areia, música para fogo preso e nonsens” vocal de desejo carnal; mil microfones rodeando tambores, gargantas escolhendo um microfone para cada palavra; ossos e ossos com buraquinhos de halloween percutidos por esgares, a lama testemunhando a nudez dos corpos, coros extáticos, vento arrancado a uma velha máquina, uma alegria doentia que nos põe a arfar sem sabermos porquê...
“Feels” é na música o que é na capa: uma colagem ébria de imagens inocentes convivendo em louca combinação – os dejectos de tinta derramada de olhos e bocas dão inusitado dinamismo e terror - uma tensão maquiavélica apodera-se de nós e é para nosso bem.
O álbum é denso em referências animalescas: cabras e coelhos, patos, lavercas, pombos e abelhas. Em “Bees”, Panda Bear entoa a voz como se invocasse o próprio insecto, zunindo e bailando em ritmos de valsa composta por crianças obstinadas. É um sono lisérgico conjurado por substâncias perfumadas, na preguiça do astro no pino do verão, com um pé a um passo do rio que docemente corre (sem edição original, como diria o Pessoa). Nem mesmo o saltério dedilhado foi deixado desamparado no prazer das horas mortas. Fantasmas en(som)nados circulam no baloiço da brisa, um piano cria pontuações aquáticas – e Panda Bear é o xamã metamorfoseando-se no insecto do mel, repetindo o seu nome. E para quem torce o nariz a tanta modernidade ao serviço da canção, “Banshee Beat” é um exemplo de “antigo” krautrock para o século XXI; um pulsar cadenciado que assoma de mansinho casa admiravelmente com o chorrilho de palavras sussurradas e ciciadas, criando agradável e provocante efeito – nem tudo nos Animal Collective é despropositado, careta feia e salto endemoninhado.
A folk caprichosa que vem dos Incredible String Band e John Fahey, espelha-se em “Daffy Duck”, com expressão dissonante e efeitos de estúdio; há um fio de água que nos seduz de um lado, enquanto do outro, uma guitarra completamente aos trambolhões tenta acercar-se do refrão, sendo esbofeteada a cada tentativa. É a parte meditativa deste extraordinário álbum, continuando em “Loch Raven”, com coros de índios celestiais e ribeiros de águas prateadas, deslizando por teclados enciclopédicos, daqueles que tudo sabem sobre o som. E benditos são os Animal Collective ao escolherem aquele mais diáfano e etéreo para fazer de estrela fugidia em “Turned Into Something”, no final do álbum. Até lá é mais uma dança apocalíptica para os sentidos abanando a canção com estribilhos de bongós e palavreados estridentes rasgados das ruas; por ali um xilofone pequenino, acolá o relinchar de um cavalo, tudo ao monte com fé no tambor e nos cem teclados virados do avesso - são loucos estes Animal Collective!
E a beleza acerca-se dos últimos minutos de “Feels”, algo se transforma num anjo ululante, como se uma crisálida esventrasse a rude textura do álbum, escapando numa drone encantada.
Muito perto da perfeição, “Feels” é a vitória da imaginação de uma nova folk, armadilhada, ferrugenta e florida, afastando a modorra para a qual já não há pachorra.

© 2007 AJQ