AKSAK MABOUL
Onze Danses Pour Combattre La Migraine (1977)
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Ora ouçam Marc Hollander : “Sendo um autodidacta, sempre ouvi grande variedade de música. Enquanto trabalhava neste álbum, quis abordar diferentes géneros e cedo me apercebi que quando tentava criar a impressão de um certo estilo musical, as minhas limitações técnicas e a minha particular e parcial compreensão do que tentava imitar transmitia um interessante toque pessoal ao resultado. O que mostra por vezes haver virtude no falhanço.”
Não que este álbum delicioso seja um fracasso, nem de longe nem de perto, mas a frase serve para explicar a autenticidade, tantas vezes independente do tecnicismo que desbarata a espontaneidade. Na sua futura editora Crammed, Hollander (e Vincent Kenis e outros), reservarão lugares marcados para a admiração étnica, desde a Roménia até Tuva, passando pela África central. Para já, este despretensioso projecto é a visão artesanal de uma hipotética música planetária, o estupendo título é um achado, fiquemo-nos por este jardim onde há abrigos por toda a parte.
Miniaturas instrumentais alternam com canções que veneram Nino Rota de Fellini ou um coral de Philip Glass. Possivelmente os tamanhos pequenos não agradam a toda a gente, mas pensem no instante fotográfico, a melodia ficou retida e depois é só assobiarmos, reinventando.
Um firmamento calorento cobre “Milano Per Caso” onde Catherine Jauniaux (heroína do próximo álbum, “Un Peu de L’Âme des Bandits”, dois anos depois) vem à varanda recolher a roupa e não fica mais do que um minuto a trautear a cançoneta dos instrumentos. No lindíssimo “Chanter Est Sain” a escassez de meios é a chave para o efeito etéreo, há qualquer coisa que lembra o Wim Mertens (também é belga!) da sua criativa primeira fase. Um piano socrático (ou lá o que seja!) enamorado de duas vozes, uma delas a ditar frases de um livro médico, onde se explica que cantar faz bem à saúde, coisa que só os mal-humorados ainda não assimilaram.
Tomemos “DBB ( Double Bind Baby), um soberbo momento paisagístico, o piano a marulhar na piscina em tarde estival, Hollander explica que é uma “ode para amigos debaixo d’água” enquanto projecta diapositivos sobre uma montanha obsessiva na Suíça. “Cuic Steppe” é um emaranhado de influências inocentemente dispostas a mandar às urtigas técnicas académicas, como o fizeram Debussy e Ravel no século passado. “Son of L’Idiot” viaja entre danças imaginárias de clarinetes e flautas, preguiçosamente o álbum atravessa recatados recantos até chegar a vez da delirante voz infantil em “Tous Les Trucs Qu’il y a Là Dehors”, irrequieta e ofegante a descrever cenas do quotidiano, a distrair Hollander no seu “hesitante fender rhodes” (sic). Antes do fecho uma ponta de melodia dos Cárpatos espreita e vai-se embora.
Logo vêm os temas que não foram incluídos na edição original. “The Mooche” destaca-se como adaptação deveras criativa da canção de Duke Ellington, as caixas de ritmo como se nascessem ali, bafejando vida própria, ao que rapidamente se circula para uma improvisação jazzy, ainda com vagas lembranças do Duke precedente. “Glympz” é idêntica bizarria, e não só no nome, pois é outra semi-improvisação com Hollander e Kenis sem mãos a medir, emulando uma África idealizada, um cumprimento entre pigmeus e berberes, e tudo aquilo que a Europa pragmática arruinou.
“Three Epileptic Folk Dances” é o que o título induz, um folclore descoberto nas vertigens citadinas, néons, buzinas de automóveis, passos apressados, pássaros famintos nas árvores dos jardins.
“Mastoul Alakefak” tem um sabor a Soft Machine naqueles encantadores fender rhodes, o teclado mais sensual do planeta...
“Comme On a Dit” é a definitiva miniatura e talvez omitida da edição original, a juntar a todas aquelas que perpassam pelo álbum, surripiando respirações, dando voltas na cama, insinuantes, inesgotáveis...”Mercredi Matin” tem só órgão farfisa e darbuka, mas assemelha-se a uma multidão pululante, entrando-nos pela sala dentro.
Cativante o desenho da capa original (acaso de inspiração Gong?), ao qual se acrescentaram as sombras da natureza morta povoada de bananas, à luz vespertina. Servirá isto para ilustrar a ambiência deste álbum?

© 2006 AJQ