AIR
Pocket Symphony (2007)
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Talvez o projecto mais emblemático da revolução (musical) francesa de meados de 90 - só equiparado em mediatismo e influência pelos Daft Punk -, a dupla Air estreou-se com um dos discos mais aclamados da década, "Moon Safari" (1998), inspirada amálgama electrónica de lounge, easy listening e dream pop que originou singles cristalinos como "Kelly Watch the Stars" ou "All I Need".
Dez anos depois, Jean-Benoit Dunckel e Nicolas Godin assinam o seu quarto registo de originais, "Pocket Symphony", mas se no início as aventuras sonoras que a dupla propunha conquistavam por uma contagiante carga de frescura e espontaneidade, nos últimos anos as suas canções nem sempre têm conseguido manter essa aura.
O novo disco é o testemunho mais paradigmático de uma certa acomodação que tem invadido a música dos Air, dado que muitas das suas composições até poderiam ter surgido na década passada, uma vez que não contêm particulares traços de inovação.
Não é, contudo, com "Moon Safari" que "Pocket Symphony" exibe maiores semelhanças, antes com a mais etérea banda-sonora para "The Virgin Suicides", de Sofia Coppola, ou algumas pistas de "Talkie Walkie", em especial o tema "Alone em Kyoto", que já continha influências orientais que adquirem aqui maior preponderância.
Um dos factores diferenciadores que tem sido referido em relação a este disco é a utilização de instrumentos tradicionais japoneses, como o koto e shamisen, mas essa opção, embora curiosa, não traz grandes novidades às sonoridades praticadas pela dupla.
Pelo contrário, são utilizados para reforçar a carga tranquila e introspectiva que sempre dominou grande parte das criações dos Air - os experimentalismos nem sempre pertinentes de "10,000 Hz Legend" foram uma excepção -, tornando "Pocket Symphony" num álbum dominado por cenários de placidez por vezes sedutores, mas globalmente redundantes e preguiçosos.
Não que o resultado seja de desprezar, mas nem mesmo as colaborações de Jarvis Cocker (Pulp) e Neil Hannon (Divine Comedy) são capazes de acrescentar sabor a uma receita já antes testada, utilizada e que de tão recorrente, já algo insípida. Curiosamente, tanto os dois cantores como os Air já tinham participado recentemente no disco de Charlotte Gainsbourg, "5:55", que partilha não só de algumas atmosferas de "Pocket Symponhy" como da relativa indiferença que este induz.
Ainda assim, se este regresso do duo francês não é particularmente estimulante, não deixa de conter um bom punhado de canções à altura dos melhores trabalhos assinados pela dupla: "Mer du Japon", um dos episódios de maior energia rítmica; "Photograph", absorvente momento de electrónica paisagista; "Lost Message", um dos temas de maior carga cinematográfica; "Left Bank", com acolhedores traços de ingenuidade a recordar a fase inicial do grupo; ou a elegante "Space Maker", uma aprazível faixa de abertura. Infelizmente, não bastam para compensar a monotonia dominante de um disco excessivamente contemplativo e de escassas variações de tom, que se ouve com algum agrado mas não gera grande impacto.

© 2007 GS