

AFTER CRYING
Megalázottak és Megszomorítottak (1992)
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Em memória de Fernando Magalhães (1955-2005)
Olhando para a capa deste álbum, podemos ficar imediatamente com uma ideia do ambiente e das sensações que a sua música transporta. Trata-se de um monumento de (e ao) negrume e melancolia, de desolação e invernia. E embora espelhe fielmente estas sensações, tal não implica que a música que compõe este segundo álbum dos húngaros After Crying seja ela própria fria ou desinteressante: a composição é muitíssimo cuidada, a interpretação é sempre profundamente sentida e emocional – sem, alguma vez descurar o aspecto técnico - e mesmo a produção apresenta um som orgânico, envolvente e acolhedor que convida o ouvinte a deixar-se perder no seu seio, mesmo que, pontualmente, o ataque com momentos de maior “violência” sonora (mas a isto voltaremos).
“Megalázottak és Megszomorítottak” é, autenticamente, uma obra progressiva. Contudo, o rótulo “rock progressivo” parecerá, aqui, algo forçado ou despropositado. Com efeito, no progressivo neo-clássico, com ocasionais toques de RiO a nível de composição, destes húngaros poucos são os resquícios de algum rock. “Música progressiva” será talvez a melhor designação.
Num trabalho onde todos os temas são bons será, ainda assim, justo fazer um especial destaque à faixa de abertura, “A Gadarai Megszállott”. Um tema de 22:10 onde tudo está no lugar: a música flui naturalmente, sem quaisquer pressas, regendo-se unicamente pela sua própria lógica, construindo-se num pathos lento mas seguro que captura o ouvinte de forma tão eficaz que ninguém diria que dura quase meia-hora. Plena de emotividade, de tensão, de inflexões dramáticas e de atmosferas quase sempre opressivas pela sua tristeza, esta primeira música desenvolve-se num crescendo que, iniciando-se no expressivo (embora nada bombástico – e ainda bem!) trabalho de violoncelo de Péter Pejtsik, acompanhado pelo subtil piano de Csaba Vedres e pela contida e atmosférica bateria de László Gacs, vai aumentado de intensidade, acumulando tensão. As vozes pontuam esta autêntica tour de force, aparecendo ocasionalmente (como, de resto, acontece ao longo de todo o disco, maioritariamente instrumental), discretas e quase exclusivamente em húngaro, sendo que acabam por soar bastante bem no contexto (mesmo que o seu significado seja imperscrutável para a maior parte do público internacional desta banda), acompanhando e complementado a vertente instrumental. Mas é só quando aparece uma voz feminina, a declamar uma só frase, desprovida de expressividade, que se dá a grande erupção: a contenção e sobriedade que pautavam a música até este momento são agora substituídas por uma violenta explosão de exuberância instrumental quase caótica sem que, contudo, alguma vez caia na cacofonia. Depois, tão bruscamente como surgiu, esta euforia desaparece, dando lugar ao silêncio, de onde emerge o mesmo andamento lento do início, fechando o ciclo e finalizando o tema.
As restantes peças que completam o álbum alinham pelo mesmo estado de espírito da faixa de abertura, contribuindo com novos matizes do cinzento que pinta a melancolia da obra: “A Kis Hõs” e “Noktürn” passam por pequenos interlúdios (o segundo dos quais será, porventura, o momento menos opressivo do disco), aos quais se segue o tema título, onde os After Crying dão, uma vez mais, provas do poderoso dinamismo que conseguem imprimir às suas composições. A encerrar o disco, “Végül”, um estranho tema onde sobre minimais teclados se constrói um solo de bateria.
“Megalázottak és Megszomorítottak” é uma obra maior na discografia dos After Crying, e bem merece o estatuto de imprescindível em qualquer boa discografia de progressivo. Um álbum que não se ouve; sente-se.
© 2005 JTC